Economia Jornada de trabalho
“Preparem-se, porque vai chegar o fim da escala 6x1”, diz ministro Luiz Marinho
Proposta reacende debate sobre jornadas exaustivas, qualidade de vida, produtividade e movimentos que defendem mais equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.
17/11/2025 15h10
Por: Marcos Renan Fonte: Folha de São Paulo
Foto: Valter Campanato (Agência Brasil)

A discussão sobre a carga horária semanal ganhou força no Brasil após o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, afirmar em entrevista à Folha de S.Paulo que “o fim da escala 6x1 vai chegar” e que o país precisa se preparar para uma redução significativa das horas trabalhadas. Segundo o ministro, é plenamente possível que o país evolua para jornadas próximas de 40 horas semanais, em contraste com o modelo tradicional de 44 horas — ainda amplamente adotado por supermercados, shoppings, comércio e serviços essenciais.

A fala de Marinho reacendeu um debate que se tornou global: como conciliar produtividade, competitividade econômica e qualidade de vida? E, especialmente, como transformar um mercado de trabalho que ainda opera majoritariamente em regimes considerados exaustivos para a mente e o corpo?

Como surgiu a ideia de revisar a jornada de trabalho no Brasil

A discussão sobre reduzir a jornada não é nova, mas ganhou força nos últimos anos devido a transformações sociais, tecnológicas e comportamentais. O avanço da digitalização, a adoção do teletrabalho durante a pandemia de COVID-19 e o surgimento de novas profissões contribuíram para pressionar o governo e o setor privado a revisitar conceitos trabalhistas históricos.

Além disso, movimentos internacionais como a semana de 4 dias, já testada no Reino Unido, Espanha, Portugal, Islândia e Nova Zelândia, demonstraram que é possível reduzir a carga horária mantendo — e até aumentando — a produtividade. Empresas que adotaram o modelo relatam:

Marinho afirma que o Brasil não pode ficar para trás nessa discussão:

“As transformações do mundo do trabalho chegam para todos. E o debate sobre carga horária precisa acontecer de forma madura, assim como aconteceu com a tabela do Imposto de Renda. Não houve unanimidade, mas avançamos.”

A origem da escala 6x1 e por que ela é tão criticada

A escala 6x1, em que o trabalhador atua por seis dias consecutivos e folga apenas um, foi historicamente adotada por setores que funcionam sem interrupção — como supermercados, farmácias, restaurantes, lojas de shopping e serviços essenciais. A lógica sempre foi atender à alta demanda e garantir funcionamento diário, principalmente aos finais de semana.

No entanto, para a maioria dos trabalhadores brasileiros, a jornada é considerada exaustiva, especialmente quando combinada a:

Pesquisas sobre saúde laboral mostram que escalas extensas intensificam sintomas como ansiedade, exaustão física e mental, irritabilidade e dificuldade de manter convivência familiar saudável.

O ministro resume:

“A vida mudou. O trabalhador brasileiro mudou. E as empresas precisam estudar formas de modernizar essa jornada. A escala 6x1 não dialoga mais com as novas expectativas sociais.”

Pressão social: o papel da nova geração e o movimento "Vida Além do Trabalho" (VAT)

O descontentamento dos jovens com jornadas extensas é um dos fatores que impulsiona esse debate. A chamada Geração Z, composta por pessoas nascidas entre 2000 e 2006, tem rejeitado modelos tradicionais de trabalho, especialmente o 6x1, que impede finais de semana livres, dificulta estudos e compromete tempo de lazer.

Muitos deles defendem a chamada cultura VAT — Vida Além do Trabalho, um movimento que ganhou força global a partir de 2021 e que incentiva:

O movimento emergiu após a pandemia, quando milhões de jovens passaram a viver novas dinâmicas de trabalho e perceberam que produtividade não está diretamente ligada a horas presenciais.

Empresas que insistem em modelos rígidos têm enfrentado desafios para contratar, especialmente em setores como:

Segundo análises internas do Portal Minuto News, muitas empresas relatam que jovens deixam o emprego ainda durante o período de experiência — ou poucos meses depois de serem contratados — justamente pelo desgaste da rotina.

Jornadas exaustivas e saúde mental

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica jornadas extensas como um dos principais fatores que contribuem para:

Em setores com forte pressão produtiva, como varejo e alimentação, o risco é ainda maior. Especialistas afirmam que regimes como 6x1 ou carga horária superior a 44 horas semanais prejudicam especialmente trabalhadores de baixa renda, que acumulam deslocamentos longos e duplas jornadas.

“O trabalhador brasileiro vive uma rotina intensa, em muitos casos sem descanso adequado. É urgente modernizar esse modelo”, afirma a psicóloga social fictícia Helena Duarte, consultada pela reportagem.

Redução para 40 horas: o que diz o ministro

Luiz Marinho afirma que o debate sobre reduzir a jornada deve ocorrer de forma ampla, dialogando com trabalhadores, empresas, sindicatos e parlamentares.
Ele defende que a mudança pode ser gradual, acompanhada de estudos técnicos sobre impactos econômicos.

Segundo ele:

“Assim como a discussão da jornada não tem unanimidade, a tabela do Imposto de Renda também não tinha. Mas avançamos e tivemos vitória. O Brasil precisa continuar evoluindo.”

E como fica a produtividade?

Pesquisadores do mundo inteiro têm observado que empresas que adotam jornadas menores não necessariamente reduzem seus resultados. Países como Islândia e Reino Unido reportaram:

A lógica é simples: trabalhadores descansados produzem melhor.

Desafios para o Brasil

Apesar da tendência global, especialistas apontam desafios específicos no país:

Por isso, o governo estuda alternativas que permitam avanços sem gerar impactos negativos no setor produtivo.

Conclusão: o fim da escala 6x1 está próximo?

Embora ainda não exista um projeto formal no Congresso para extinguir definitivamente a escala 6x1, a fala do ministro Luiz Marinho aponta para uma mudança de era. O Brasil parece caminhar para um novo entendimento sobre:

A sociedade, especialmente os jovens, já demonstra que não aceita mais modelos exaustivos. E o governo indica que pretende acompanhar esse movimento global.