Uma atividade pedagógica envolvendo cultura afro-brasileira provocou um episódio de forte tensão em uma escola municipal da zona oeste de São Paulo e acabou mobilizando a Polícia Militar. O caso aconteceu na Escola Municipal Antônio Bento, no bairro do Caxingui, onde um pai, insatisfeito com o conteúdo trabalhado pela professora da Educação Infantil, acionou a PM e retornou à unidade acompanhado de policiais armados, assustando alunos e funcionários.
O impasse teve início quando a turma participou de uma atividade baseada no livro infantil Ciranda em Aruanda, obra regularmente utilizada na rede municipal e recomendada por especialistas em literatura infantil. O conteúdo apresenta, de forma lúdica, elementos da mitologia afro-brasileira, trazendo orixás como Oxóssi, Iansã, Iemanjá e Xangô com linguagem simples e foco cultural, não religioso.
As crianças ouviram histórias e depois fizeram desenhos sobre os personagens apresentados. A filha do homem que acionou a polícia desenhou Iansã, uma das figuras retratadas no livro. Segundo relatos de funcionários, o pai demonstrou incômodo já no dia anterior ao episódio mais grave e teria rasgado parte de um mural onde os trabalhos da turma estavam expostos.
Apesar de ter sido orientado pela equipe pedagógica sobre o caráter cultural da atividade — que atende à Lei Federal 10.639/2003, responsável por incluir no currículo escolar o ensino da história e cultura afro-brasileira — o homem retornou no dia seguinte acompanhado por quatro policiais militares.
Testemunhas relatam que os policiais entraram no prédio escolar portando armamento, incluindo ao menos uma arma de grande calibre. A presença inesperada e intimidadora dos agentes criou um ambiente de medo e insegurança. Funcionários disseram que crianças começaram a chorar e demonstraram pânico ao ver os policiais armados circulando pelos corredores.
A diretora da escola, abalada com a situação, passou mal e precisou ser retirada por servidores. A PM permaneceu no local por mais de uma hora conversando com o pai e com membros da gestão. Tanto as câmeras corporais dos policiais quanto o sistema de segurança da escola registraram toda a ocorrência.
Moradores e familiares disseram que nunca haviam presenciado um episódio semelhante na comunidade escolar e classificaram a ação como desproporcional.
A direção explicou aos policiais e ao pai que a atividade não tinha qualquer finalidade de doutrinação religiosa. A obra utilizada está presente há anos no acervo pedagógico da rede municipal, sendo validada por instituições de literatura infantil e alinhada a metas educacionais de valorização da diversidade cultural.
Educadores da unidade afirmam que o objetivo era apresentar às crianças diferentes elementos da formação brasileira, estimulando o respeito e o reconhecimento de matrizes culturais que compõem a identidade nacional.
Além disso, destacam que a legislação brasileira determina a obrigatoriedade do ensino sobre a cultura africana e indígena nas escolas públicas. Portanto, a atividade estava totalmente em conformidade com o currículo municipal.
A ação policial repercutiu negativamente entre familiares e moradores do bairro. No domingo seguinte, pais e responsáveis organizaram um abaixo-assinado pedindo que a Corregedoria da Polícia Militar investigue o caso como possível abuso de autoridade.
Mães relataram que os filhos voltaram para casa com medo e sem entender por que policiais armados estavam dentro da escola. Uma das responsáveis declarou ao Portal Minuto News:
“As crianças ficaram apavoradas. Ninguém espera ver uma metralhadora dentro de uma escola infantil. Isso não é normal.”
Outra mãe relatou que funcionários estavam visivelmente abalados e que algumas professoras choraram após o encerramento da ocorrência, temendo que situações semelhantes aconteçam novamente.
A Secretaria de Segurança Pública (SSP) informou, em nota, que os policiais atuaram para “apaziguar os ânimos” e orientaram tanto o pai quanto a direção a registrarem boletim de ocorrência, caso julgassem necessário. A pasta não comentou o uso de armamento pesado na ação.
Já a Prefeitura de São Paulo esclareceu que o responsável foi informado sobre o caráter pedagógico e coletivo da atividade, reforçando que o trabalho integra o currículo municipal e tem amparo legal.
A gestão municipal reiterou que não houve violação de normas e que a escola seguiu as diretrizes previstas em lei para ensino de cultura afro-brasileira e indígena.
O episódio reacendeu discussões sobre intolerância religiosa e a compreensão distorcida de atividades culturais realizadas em escolas públicas. Especialistas em educação e diversidade cultural afirmam que muitas famílias ainda confundem conteúdos pedagógicos com práticas religiosas, o que pode levar a conflitos e episódios de violência simbólica — como ocorreu no Caxingui.
De acordo com pesquisadores, ensinar sobre orixás, símbolos africanos ou tradições indígenas não significa adesão religiosa, mas sim reconhecimento da herança cultural presente na formação do povo brasileiro. Essa abordagem é tratada de forma histórica, ilustrativa e literária, e não como ritual ou celebração de religião específica.
Educadores alertam que episódios como esse geram insegurança entre profissionais da rede pública. Muitos temem retaliação por parte de famílias que não compreendem o currículo escolar e questionam conteúdos culturalmente relevantes.
Especialistas também afirmam que a presença de policiais armados em uma instituição de ensino infantil, sem situação de risco real, pode representar violação do direito das crianças a um ambiente seguro e acolhedor.
O sindicato dos profissionais da educação da cidade avalia que o caso abre precedente perigoso e reforça a necessidade de protocolos rigorosos sobre entrada de agentes armados em escolas.
O abaixo-assinado organizado pelos moradores segue sendo distribuído no bairro e nas redes sociais, pedindo que haja esclarecimento, responsabilização — se cabível — e respeito às atividades pedagógicas. Pais e responsáveis afirmam que a escola sempre manteve boa relação com a comunidade e lamentam que um episódio pontual tenha sido tratado como caso policial.
Moradores também defendem que a formação das crianças deve incluir diversidade cultural e respeito às diferenças, e que episódios como esse podem prejudicar a qualidade da educação e gerar trauma entre os pequenos.