Um episódio de extrema violência marcou a manhã do último domingo (30), no bairro Oásis, em Itanhaém, no litoral sul de São Paulo. Um homem de 42 anos foi preso após ser acusado de jogar álcool e atear fogo no rosto da companheira, de 45 anos, durante uma discussão dentro da residência onde o casal vivia. O caso, que rapidamente ganhou repercussão na região, foi registrado como tentativa de feminicídio e violência doméstica.
De acordo com informações repassadas pelas autoridades, a vítima foi socorrida logo após o ataque e encaminhada para atendimento médico na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da cidade. Mesmo bastante abalada, ela conseguiu relatar à equipe policial que as queimaduras sofridas foram resultado de uma ação proposital do companheiro. O agressor, por sua vez, tentou sustentar que tudo não passou de um acidente, versão que não convenceu nem os policiais que realizaram o flagrante, nem os profissionais de saúde responsáveis pelo atendimento.
A investigação é conduzida pela Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Itanhaém. A delegada responsável pelo caso, Damiana Shibata Requel, detalhou que a discussão entre o casal evoluiu rapidamente para violência física. Segundo ela, em certo momento do desentendimento, o homem teria se apoderado de um recipiente com álcool e arremessado o líquido sobre a vítima. Em seguida, ele teria utilizado uma fonte de fogo para provocar as queimaduras. A delegada também ressaltou que o agressor já possuía histórico de violência contra outra ex-companheira, o que reforça o comportamento reincidente e o risco que representava.
Ainda segundo Damiana Requel, a gravidade das lesões, o depoimento consistente da vítima e a manifestação médica que descreveu o caráter intencional das queimaduras foram determinantes para que a prisão em flagrante fosse rapidamente convertida em prisão preventiva. A delegada afirmou que o conjunto de provas colhidas na fase inicial da investigação afasta completamente a tese de acidente apresentada pelo suspeito, indicando claramente que ele tinha plena consciência do que estava fazendo quando ateou fogo na mulher.
A Secretaria da Segurança Pública confirmou que o caso foi enquadrado como tentativa de feminicídio, categoria que abrange crimes motivados por violência doméstica, discriminação de gênero ou menosprezo à condição feminina. A classificação reflete a severidade da agressão e o entendimento de que a vítima correu risco real e imediato de morte.
A deputada estadual Solange Freitas (União) também se manifestou após tomar conhecimento do episódio e denunciar o caso às autoridades. Ela reforçou a importância de políticas públicas que ampliem a proteção de mulheres em situação de vulnerabilidade e destacou a necessidade de respostas rápidas do Estado em situações de violência extrema, como a registrada em Itanhaém. Em sua análise, o fato de o agressor já ter histórico de comportamentos violentos demonstra falhas no ciclo de proteção que deveriam impedir novos ataques.
O comportamento recorrente de homens que já praticaram violência contra outras mulheres preocupa especialistas da área e reforça a importância de meios mais eficientes de acompanhamento e fiscalização de agressores, principalmente quando há registros prévios de condutas semelhantes. A reincidência é frequentemente observada em casos de violência doméstica, o que demonstra não apenas a falta de responsabilização em alguns episódios, mas também a ausência de mecanismos de prevenção contínua.
Neste caso específico, a ação rápida da Polícia Civil permitiu que o agressor fosse retirado do convívio social no mesmo dia do ataque, reduzindo o risco de novas investidas contra a vítima. A prisão preventiva busca garantir não apenas a integridade física da mulher, mas também a continuidade das investigações sem interferências ou tentativas de intimidação.
Conforme relatado pelas autoridades, a mulher permanece sob acompanhamento médico e psicológico após o episódio traumático. O impacto emocional e físico de queimaduras no rosto pode deixar sequelas duradouras, o que torna fundamental a oferta de suporte especializado. A recuperação, no entanto, vai além das marcas visíveis — envolve também a reconstrução da autoestima, do senso de segurança e da confiança em seu próprio ambiente de convivência.
Casos como esse ressaltam a necessidade de reforçar as denúncias de violência doméstica e garantir que mulheres em situação de risco tenham acesso rápido a canais de apoio. A Delegacia da Mulher de Itanhaém reforçou que denúncias podem ser feitas presencialmente, pelo número 180, pelo telefone 190 da Polícia Militar ou por meio do aplicativo SOS Mulher, que permite acionamento imediato das autoridades.
A violência doméstica permanece como um dos problemas mais graves do país. Apesar de avanços legislativos importantes, como a Lei Maria da Penha e o feminicídio tipificado como crime hediondo, a realidade mostra que muitas mulheres ainda vivem situações de ameaça dentro das próprias casas. A falta de apoio familiar, medo de represálias, dependência financeira e vergonha são fatores que contribuem para que diversas vítimas permaneçam em silêncio por longos períodos.
A delegada Damiana Requel reforçou que cada denúncia é um passo essencial para interromper o ciclo de violência e evitar que episódios como o registrado no bairro Oásis terminem de maneira ainda mais trágica. Ela destacou que a investigação seguirá com a coleta de novos depoimentos e análise complementar de evidências, garantindo que o caso seja conduzido com rigor e transparência.
O homem permanece detido à disposição da Justiça, enquanto o Ministério Público acompanha o andamento do inquérito. A expectativa é de que o caso avance rapidamente para a esfera judicial, dada a gravidade das circunstâncias e o risco que a vítima correu ao sofrer queimaduras no rosto, região vulnerável e frequentemente atingida por agressores em casos de violência doméstica.
A comunidade de Itanhaém ficou chocada com o crime, que reacendeu debates sobre segurança da mulher e prevenção de agressões dentro de relações afetivas. A prefeitura e entidades locais destacaram a importância de campanhas permanentes de conscientização e de serviços especializados, como abrigos, atendimento psicológico e suporte jurídico para vítimas.
Enquanto as autoridades aprofundam as investigações, a vítima recebe apoio e acompanhamento multidisciplinar. O caso reforça a urgência de ampliar o alcance das políticas de proteção à mulher e garantir que agressões desse tipo sejam enfrentadas com firmeza, responsabilidade e sensibilidade — pilares fundamentais para combater a violência de gênero em todo o país.