Polícia Tráfico Humano
Brasileiras resgatadas na Espanha eram mantidas sob regime de exploração sexual e ameaças constantes
Operação Alícia desarticula organização criminosa que atuava no Brasil e na Europa e lucrava milhões com tráfico de mulheres
14/12/2025 20h56 Atualizada há 6 meses
Por: Marcos Renan

Uma investigação conjunta entre a Polícia Nacional da Espanha e a Polícia Federal do Brasil revelou um esquema criminoso de tráfico internacional de pessoas que submetia mulheres brasileiras a condições extremas de exploração sexual. Ao todo, 28 brasileiras foram resgatadas na cidade de Álava, no norte da Espanha, após serem mantidas em situação análoga à escravidão, privadas de liberdade e submetidas a jornadas exaustivas de exploração.

De acordo com as autoridades, as vítimas eram obrigadas a manter relações sexuais com até 15 homens por dia, sem qualquer possibilidade de recusa. A rotina era imposta por meio de vigilância constante, ameaças diretas e intimidação psicológica, incluindo referências a familiares que permaneceram no Brasil.

A ofensiva policial, batizada de Operação Alícia, foi deflagrada nesta quarta-feira (10) com o objetivo de desarticular o núcleo da organização criminosa responsável pelo recrutamento das mulheres em território brasileiro. Mandados de prisão e busca foram cumpridos nas cidades de São Paulo, Ubatuba e Jundiaí, no estado paulista, além de Rio das Ostras, no Rio de Janeiro. Na Espanha, outras prisões também foram efetuadas.

Aliciamento e falsas promessas

Segundo a Polícia Federal, o grupo criminoso tinha como alvo mulheres em situação de vulnerabilidade social. Muitas já atuavam como profissionais do sexo no Brasil, o que facilitava a abordagem dos aliciadores. Eles ofereciam falsas promessas de melhores condições de trabalho no exterior, ganhos elevados em moeda estrangeira e uma suposta estrutura profissional que nunca se concretizava.

Após aceitarem a proposta, as mulheres eram levadas para a Espanha e passavam a viver sob rígido controle da quadrilha. Ao chegar ao país europeu, seus documentos eram retidos e a liberdade de ir e vir era completamente restringida.

As vítimas eram alojadas em grandes imóveis alugados pela organização criminosa, onde permaneciam sob constante vigilância de ao menos um integrante do grupo. Para dificultar a atuação das autoridades, as mulheres eram frequentemente transferidas entre cidades, numa tentativa de despistar investigações e denúncias.

Violência, coerção e medo

De acordo com informações da Polícia Federal, as mulheres não tinham autonomia sequer para recusar clientes ou estabelecer limites. Em casos extremos, eram obrigadas a consumir drogas quando solicitado pelos clientes, mesmo contra a própria vontade. A recusa resultava em punições, ameaças ou represálias.

“O controle era feito pelo medo. Elas eram constantemente lembradas de que a organização tinha ramificações no Brasil e conhecia familiares próximos, como mães e filhos. Isso criava um ambiente de terror psicológico permanente”, explicou um dos delegados envolvidos na investigação.

Os clientes eram atraídos por meio de anúncios na internet. Até o momento, segundo as autoridades, não há indícios de que eles tivessem conhecimento das condições degradantes às quais as mulheres eram submetidas.

Lucro milionário e bloqueio de bens

As investigações apontam que a organização criminosa movimentou aproximadamente R$ 40 milhões com o tráfico internacional de pessoas e a exploração sexual das vítimas. O valor foi bloqueado por decisão judicial, como forma de interromper o financiamento das atividades ilegais e possibilitar futura reparação às vítimas.

No total, cinco pessoas foram presas, sendo três no Brasil — um homem e duas mulheres — e outras duas na Espanha. Elas responderão por crimes como tráfico internacional de pessoas, organização criminosa e exploração sexual.

Acolhimento das vítimas

Após o resgate, as brasileiras receberam atendimento psicológico, assistência social e apoio das autoridades espanholas, com acompanhamento consular brasileiro. O objetivo é garantir segurança, recuperação emocional e eventual retorno ao Brasil, caso desejem.

A Polícia Federal reforçou que denúncias são fundamentais para o combate ao tráfico humano, crime considerado uma grave violação dos direitos humanos e que segue sendo uma realidade silenciosa em diversos países.

A Operação Alícia representa mais um passo no enfrentamento desse tipo de crime transnacional, evidenciando a importância da cooperação internacional para proteger vítimas e responsabilizar organizações criminosas que lucram com a exploração da dignidade humana.