Saúde Saúde bucal
Cárie vai além do dente e representa risco à saúde geral da população brasileira
Doenças cardíacas, infecções graves e impactos no desenvolvimento infantil estão entre as consequências da cárie não tratada
22/12/2025 15h10
Por: Marcos Renan

A cárie dentária, muitas vezes encarada como um problema simples ou restrito à estética do sorriso, é uma doença crônica que pode gerar consequências sérias e duradouras para a saúde geral. Caracterizada pela destruição progressiva dos tecidos dentais, a cárie provoca dor, infecções, abscessos, sensibilidade e perda dentária. No entanto, seus impactos ultrapassam a cavidade bucal, afetando diretamente o bem-estar físico, emocional e social dos indivíduos, além de representar um importante desafio de saúde pública no Brasil.

Dados recentes da Pesquisa Nacional de Saúde Bucal 2023 revelam um cenário preocupante. Adultos brasileiros apresentam, em média, 10,7 dentes acometidos por cárie, e cerca de metade das pessoas entre 35 e 44 anos possui ao menos um dente com cárie não tratada. A maior concentração desses casos está nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, refletindo desigualdades no acesso à prevenção e ao tratamento odontológico.

Entre as crianças, o problema é ainda mais alarmante. Em crianças de 5 anos, a cárie não tratada corresponde a 78,38% do índice ceo-d, utilizado para avaliar a presença da doença em dentes decíduos. Esses números evidenciam que a cárie começa cedo e, quando negligenciada, pode comprometer o desenvolvimento físico e emocional desde a infância.

Segundo a presidente da Câmara Técnica de Odontopediatria do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP), Dra. Patrícia Valéria C. Georgevich, a cárie infantil evolui de forma rápida e agressiva. “Além de prejudicar os dentes permanentes, a doença interfere na mastigação, na fala e no comportamento da criança. Dor constante pode causar irritabilidade, dificuldade de concentração e queda no rendimento escolar”, explica.

Na infância, os efeitos da cárie vão além da dor. Crianças com lesões cariosas podem apresentar dificuldade para se alimentar, distúrbios do sono, atraso no ganho de peso e até problemas emocionais relacionados à autoestima. A especialista alerta que, em casos mais graves, a cárie pode levar à hospitalização, disseminação da infecção pelo rosto e pescoço e, em situações extremas, à infecção generalizada.

Para o membro da Câmara Técnica de Saúde Coletiva do CROSP, Dr. Fábio Spinosa, o enfrentamento da cárie no Brasil tem avançado, especialmente por meio de políticas públicas. Programas como o Programa Saúde na Escola (PSE) promovem ações educativas, escovação supervisionada e conscientização sobre hábitos saudáveis desde a infância. Outro fator essencial destacado pelo especialista é a fluoretação da água, reconhecida mundialmente como uma das medidas mais eficazes na prevenção da cárie.

“O programa Brasil Sorridente fortalece essas ações com campanhas educativas, distribuição de kits de higiene bucal e aplicação tópica de flúor. Essas iniciativas ampliam o acesso ao cuidado e contribuem para a redução da incidência da doença”, afirma Spinosa. Ainda assim, ele reforça que a responsabilidade individual é fundamental. A recomendação é realizar a escovação de três a quatro vezes ao dia, independentemente da alimentação, além do uso diário do fio dental.

O especialista ressalta que alguns grupos apresentam maior risco para o desenvolvimento da cárie, como pessoas com má formação dentária, má oclusão, dieta rica em açúcares e higienização inadequada. Fatores socioeconômicos também influenciam diretamente a prevalência da doença, especialmente em comunidades com menor acesso a serviços odontológicos e produtos de higiene bucal.

O presidente da Câmara Técnica de Dentística do CROSP, Dr. Sergio Brossi Botta, explica que a cárie é uma doença multifatorial, resultante da interação entre bactérias presentes na boca, restos alimentares fermentáveis e hábitos de vida. “A cárie é uma disbiose, ou seja, um desequilíbrio do meio bucal, e não uma doença contagiosa no sentido tradicional”, esclarece.

Os sintomas variam conforme o estágio da lesão. Em fases iniciais, quando a cárie atinge apenas o esmalte dental, não há sinais perceptíveis, sendo o diagnóstico possível apenas por meio de avaliação profissional. Com a progressão da lesão, surgem manchas escuras, sensibilidade e, nos casos mais avançados, dor intensa e espontânea.

O tratamento depende do estágio da doença. Lesões iniciais podem ser revertidas com métodos não invasivos, como a aplicação de flúor. Em casos intermediários, procedimentos minimamente invasivos e restaurações são indicados. Quando a cárie alcança a polpa do dente, torna-se necessário o tratamento de canal, podendo evoluir para o uso de coroas ou próteses. Em situações extremas, a extração dentária é inevitável.

Além dos danos locais, a cárie não tratada pode causar complicações sistêmicas graves. Infecções bucais podem atingir a corrente sanguínea e alcançar órgãos vitais, como coração e cérebro. Entre os quadros mais preocupantes estão a endocardite bacteriana, inflamação grave do revestimento do coração, e a Angina de Ludwig, infecção rara e potencialmente fatal que compromete as vias aéreas. Também há risco de infecções no sistema nervoso central, como meningite, decorrentes da disseminação bacteriana.

Esses dados reforçam que cuidar da saúde bucal é cuidar da saúde como um todo. O diagnóstico precoce, a prevenção e o acompanhamento regular com um cirurgião-dentista são fundamentais para evitar complicações que podem colocar a vida em risco.

O Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP) atua na fiscalização do exercício profissional e na promoção da ética na odontologia em todo o estado. Atualmente, a autarquia conta com mais de 175 mil profissionais inscritos, entre cirurgiões-dentistas e auxiliares da área. O órgão reforça que a prevenção é o caminho mais eficaz para reduzir os impactos da cárie e promover qualidade de vida à população.