Política STF e Banco
Moraes teria procurado presidente do Banco Central para tratar de venda do Banco Master, aponta reportagem
Revelações sobre contatos entre o ministro do STF e Gabriel Galípolo reacendem debate político, levam parlamentares a falar em CPI e novo pedido de impeachment
25/12/2025 10h12 Atualizada há 6 meses
Por: Marcos Renan Fonte: Metópoles
ALEXANDRE DE MORAES EM SESSÃO PLENÁRIA DO STF

Uma reportagem publicada pela colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, trouxe novos elementos ao debate político e institucional em Brasília ao apontar que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), teria procurado ao menos quatro vezes o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para tratar de assuntos relacionados ao Banco Master, instituição financeira controlada pelo empresário Daniel Vorcaro. As informações repercutiram imediatamente no Congresso Nacional e já motivaram manifestações públicas de parlamentares que defendem a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar o caso.

Segundo a apuração da colunista, os contatos teriam ocorrido em diferentes momentos, sendo um deles de forma presencial e outros três por telefone. O objetivo das conversas, de acordo com a reportagem, teria sido acompanhar o andamento da operação de venda do Banco Master para o Banco de Brasília (BRB), negócio que vinha sendo analisado pelas autoridades competentes, incluindo o próprio Banco Central, responsável pela regulação e fiscalização do sistema financeiro nacional.

Ainda conforme a reportagem, em julho deste ano Alexandre de Moraes teria solicitado um encontro com Gabriel Galípolo para tratar diretamente da operação. Durante a conversa, o ministro teria pedido que o presidente do Banco Central aprovasse a venda do Banco Master ao BRB, demonstrando simpatia pessoal por Daniel Vorcaro. A publicação ressalta que Galípolo teria respondido que a autarquia já havia identificado indícios de fraudes na operação envolvendo o Banco Master, o que inviabilizaria a aprovação do negócio nos moldes apresentados.

De acordo com Malu Gaspar, diante dessa informação, Moraes teria concordado que, havendo fraude comprovada, a operação de venda não poderia prosperar. Ainda assim, a revelação de contatos reiterados entre um ministro do STF e o presidente do Banco Central para tratar de um assunto envolvendo uma instituição privada levantou questionamentos sobre os limites institucionais e a separação entre os Poderes.

Outro ponto que ampliou a repercussão do caso foi a informação de que o Banco Master firmou um contrato de R$ 129 milhões com o escritório Barci de Moraes Advogados, pertencente à advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes. Segundo a reportagem, o contrato previa pagamentos mensais de aproximadamente R$ 3 milhões e incluía a atuação do escritório na defesa dos interesses do banco em diversas frentes institucionais, incluindo o Congresso Nacional e o Banco Central.

A revelação do contrato reacendeu o debate sobre possíveis conflitos de interesse, ainda que, até o momento, não haja decisão judicial que aponte irregularidade formal na contratação. Especialistas ouvidos em diferentes espaços públicos destacam que contratos de advocacia dessa magnitude são incomuns no mercado e, por isso, tendem a gerar maior escrutínio público e político, sobretudo quando envolvem figuras de alto escalão do Judiciário.

No Congresso Nacional, a repercussão foi imediata. O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) anunciou publicamente que pretende iniciar a coleta de assinaturas para a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a investigar o contrato entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes Advogados, bem como as supostas atuações do ministro Alexandre de Moraes em favor da instituição financeira.

Em publicação nas redes sociais, o parlamentar afirmou que a CPI teria como objetivo esclarecer “notícias sobre um contrato entre o Banco Master e o escritório da família do ministro Moraes, no valor de 129 milhões de reais, fora do padrão da advocacia, além da notícia de atuação direta do ministro em favor do banco”. Segundo Vieira, a iniciativa será formalizada após o recesso parlamentar, quando os trabalhos legislativos forem retomados.

Na Câmara dos Deputados, o líder do partido Novo, Marcel Van Hattem (RS), também se manifestou e anunciou que começará a coletar assinaturas para um novo pedido de impeachment contra Alexandre de Moraes. O deputado sustenta que as informações divulgadas pela imprensa justificariam uma apuração mais profunda por parte do Legislativo, especialmente no que diz respeito à conduta de um ministro do STF em relação a interesses privados.

O caso ocorre em um contexto de forte polarização política e de frequentes embates entre integrantes do Judiciário e setores do Congresso Nacional. Alexandre de Moraes, que ocupa posição central em decisões de grande impacto nos últimos anos, é alvo recorrente de críticas por parte de parlamentares da oposição, enquanto também recebe apoio de aliados que defendem sua atuação institucional.

Até o momento, nem o ministro Alexandre de Moraes nem o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, se manifestaram oficialmente sobre o teor específico da reportagem. O Banco Master e o escritório Barci de Moraes Advogados também não divulgaram notas públicas adicionais esclarecendo os termos do contrato citado ou comentando as informações reveladas.

Especialistas em direito constitucional e administrativo apontam que a simples existência de contatos institucionais não configura, por si só, ilegalidade, mas ressaltam que a transparência e a clareza sobre a natureza dessas interações são fundamentais para preservar a confiança nas instituições. Em especial, destacam que autoridades públicas devem adotar cautela redobrada quando tratam de assuntos que envolvem interesses privados potencialmente ligados a familiares.

A eventual abertura de uma CPI dependerá da obtenção do número mínimo de assinaturas exigido pelo regimento do Senado Federal. Caso seja instalada, a comissão poderá convocar autoridades, requisitar documentos e ouvir representantes das instituições envolvidas, ampliando o debate público sobre o tema.

Enquanto isso, o episódio reforça o clima de tensão entre Poderes e mantém em evidência discussões sobre ética pública, conflito de interesses e os limites da atuação institucional. A depender dos desdobramentos, o caso pode ter impactos políticos relevantes em 2026, ano que antecede um novo ciclo eleitoral e tende a intensificar disputas e narrativas no cenário nacional.