O Brasil já ouviu falar de Inteligência Artificial. O dado é quase unânime, 82% da população reconhece o termo. O problema começa logo na frase seguinte, apenas 54% afirmam entender do que se trata. A IA, por aqui, ainda é uma palavra grande demais para uma compreensão pequena demais, um elefante tecnológico atravessando a sala enquanto metade das pessoas finge que sabe exatamente onde ele vai se sentar.
Os números da Pesquisa sobre Consumo e Uso de Inteligência Artificial no Brasil, realizada pelo Observatório Fundação Itaú em parceria com o Datafolha, em julho de 2025, revelam mais do que estatísticas, revelam um país em estado de ambivalência digital. Encantado com as promessas, inquieto com os riscos, especialmente quando o assunto é trabalho, dados pessoais e futuro profissional.
Quase metade dos brasileiros, 49%, percebe a IA como uma ameaça ao emprego. E não se trata de um medo abstrato, 41% já ouviram falar de casos concretos em que trabalhadores foram substituídos por sistemas automatizados. A substituição deixou de ser hipótese futurista, tornou-se relato cotidiano, circulando em conversas de corredor, grupos de WhatsApp e manchetes tímidas.
Ao mesmo tempo, há esperança. Para 41% da população, a IA pode melhorar a qualidade da educação e impulsionar a ciência e a inovação. É curioso como o mesmo número aparece nos dois lados da balança, esperança e medo caminham de mãos dadas, como irmãos que discordam, mas não se separam.
O que esses dados escancaram não é apenas a chegada da Inteligência Artificial, isso é um fato consumado, mas a urgência do letramento digital como política pública, estratégia educacional e pacto social. Não basta saber que a IA existe, é preciso compreender como ela funciona, onde é aplicada, quem a controla e, sobretudo, como conviver com ela sem ser engolido.
Letramento digital não é aprender a apertar botões nem decorar nomes de ferramentas. É desenvolver pensamento crítico, capacidade de avaliação ética, noções de proteção de dados e entendimento dos impactos econômicos e sociais da tecnologia. Em outras palavras, é sair da posição de usuário passivo para a de cidadão digital consciente.
O medo de 42% dos brasileiros em relação ao uso de seus dados pessoais não é paranoia, é sintoma. Indica que as pessoas intuem o risco, mas não dominam os mecanismos de proteção, consentimento e governança algorítmica. Onde falta informação, sobra insegurança. Onde falta formação, cresce a desconfiança.
No campo da empregabilidade, o desafio é ainda mais delicado. A IA não elimina apenas postos de trabalho, ela redefine funções, exige novas competências e desloca o valor do trabalho humano para áreas menos mecânicas e mais criativas, analíticas e relacionais. O problema é que essa transição não acontece sozinha, nem de forma justa, sem investimento massivo em requalificação profissional.
Falar em futuro do trabalho sem falar em letramento digital é como discutir alfabetização ignorando a existência do alfabeto. O Brasil corre o risco de aprofundar desigualdades históricas se permitir que apenas uma elite compreenda, programe e decida os rumos da Inteligência Artificial, enquanto a maioria apenas reage aos seus efeitos.
A boa notícia é que ainda há tempo. O mesmo país que teme também reconhece benefícios. O mesmo cidadão que desconfia também se mostra aberto à inovação quando ela promete melhorar a educação e a ciência. Entre o fascínio e o medo, existe um caminho possível, formar pessoas para compreender, criticar, usar e transformar a tecnologia.
A Inteligência Artificial não é neutra, mas o analfabetismo digital é fatal. Se o Brasil quiser que a IA seja aliada, e não sentença, precisará investir menos em discursos encantados e mais em letramento sério, inclusivo e contínuo. Porque o futuro do trabalho não será decidido apenas por máquinas, mas pela capacidade humana de entendê-las antes que elas decidam sozinhas.