Todo ano, com a chegada do verão, me invade uma sensação de inquietação.
Para onde correr quando os termômetros ultrapassam os 32 graus?
Moro numa cidade-forno. Piracicaba, mesmo cortada por um rio, ferve. E não apenas em janeiro: o calor se arrasta até março, às vezes abril, como se o verão se recusasse a ir embora.
Agora pense em cidades ainda maiores, com poucas árvores para oferecer sombra. É quase meio-dia, hora do almoço corrido. Você precisa encontrar um lugar para comer. O chão de concreto reflete os raios do sol direto no rosto. Não há uma única mancha de sombra ao alcance dos olhos.
Ter ar-condicionado no Brasil já deixou de ser luxo: virou artigo de primeira necessidade. Mas não passamos o dia dentro de casa. Assim, os shoppings se transformam em refúgios climáticos — abrigo provisório para quem não tem piscina, ar-condicionado ou sequer um cômodo bem ventilado.
O calor intenso não apenas esquenta: ele oprime. Tira o ânimo, encurta a paciência. Depois de um dia inteiro enfrentando ruas e trânsito, chegar em casa parece uma pequena jornada de salvação. Os prédios também absorvem sol o dia todo, e as casas viram fornos. Quem pode, toma vários banhos para tentar sobreviver ao calor do próprio corpo.
Dá vontade de viver na praia: pouca roupa, o mar sempre por perto, água de coco e sorvete como salvação. É a doce ilusão de quem já esteve no litoral em pleno verão e sabe que ali também tem seu próprio inferno: sol implacável, mosquitos, multidões disputando cada centímetro de areia.
O Brasil é imenso, cresce em população urbana, suas cidades se espalham, porém o conforto de parques planejados, áreas verdes e espaços acessíveis para crianças e pets quase nunca acompanha esse crescimento. No fundo, talvez todos desejemos a mesma coisa: um lugar fresco, um pouco de silêncio, menos estresse. Esse é o meu sonho de verão.
E o seu?