Política Ética no Judiciário
Ayres Britto defende reputação ilibada no Judiciário durante evento no STJ
Ministro aposentado do STF destaca exigência de integridade contínua para magistrados e causa desconforto em evento com autoridades
20/03/2026 22h21
Por: Marcos Renan

Durante um evento realizado no Superior Tribunal de Justiça, em Brasília, o ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal, Ayres Britto, fez declarações enfáticas sobre os critérios éticos e técnicos exigidos para o exercício de cargos no mais alto escalão do Judiciário brasileiro. A fala ocorreu na terça-feira (17), durante o lançamento de um prêmio voltado ao reconhecimento de boas condutas jurídicas.

Em seu discurso, Britto ressaltou que a Constituição brasileira estabelece parâmetros rigorosos para a nomeação de ministros de tribunais superiores, como o STF e o STJ. Segundo ele, não basta que os indicados possuam conhecimento técnico; é fundamental que apresentem reputação ilibada e mantenham uma trajetória livre de questionamentos.

“Para certas investiduras em cargos, a Constituição exige reputação ilibada e notável saber jurídico, sem mancha e acima de qualquer dúvida”, afirmou o ex-ministro, reforçando a necessidade de que esses critérios não sejam apenas formais, mas efetivamente observados ao longo de toda a permanência no cargo.

Requisitos que vão além da nomeação

Ayres Britto destacou que as exigências constitucionais não se limitam ao momento da indicação e aprovação dos magistrados, mas devem ser mantidas de forma contínua durante o exercício da função. Para ele, a credibilidade do Judiciário depende diretamente da conduta de seus integrantes.

“É mais do que idoneidade moral. Para entrar no Supremo e no STJ é preciso manter notável saber jurídico, com reputação ilibada. São requisitos permanentes, que precisam ser observados o tempo inteiro”, declarou.

A fala reforça a ideia de que a legitimidade das decisões judiciais está diretamente ligada à confiança pública nas instituições. Em um contexto de crescente escrutínio sobre autoridades, o posicionamento de Britto chama atenção para a responsabilidade constante dos magistrados.

Clima de desconforto no evento

O discurso ocorreu na presença de diversas autoridades do Judiciário, incluindo o ministro do STF Dias Toffoli, que recentemente teve seu nome citado em investigações relacionadas ao chamado “escândalo do Banco Master”. Embora não tenha mencionado diretamente o caso, a fala de Britto foi interpretada por alguns presentes como uma indireta, gerando um clima de desconforto no ambiente.

Relatos de bastidores indicam que o tom do discurso surpreendeu parte dos participantes, especialmente pela firmeza com que o ex-ministro abordou a questão da ética e da reputação no Judiciário. Ainda assim, não houve manifestações públicas durante o evento em resposta às declarações.

Prestação de contas e transparência

Durante sua participação, Ayres Britto também relembrou uma frase dita por ele quando ainda integrava o STF, destacando a importância da transparência e da prestação de contas no exercício do poder.

“No poder, todo pudor começa com desnudamento. E começa com a prestação de contas”, afirmou, sugerindo que a exposição e a responsabilidade são elementos fundamentais para a manutenção da confiança pública nas instituições.
A declaração reforça o entendimento de que a atuação no Judiciário deve estar sujeita a padrões elevados de transparência, especialmente em um momento em que a sociedade exige maior clareza e responsabilidade por parte das autoridades.

Código de ética em discussão

Outro ponto abordado pelo ex-ministro foi a proposta de criação de um código de ética para o Judiciário, iniciativa defendida pelo presidente do STF, Edson Fachin. Britto avaliou positivamente a ideia, destacando sua relevância para o fortalecimento institucional. Segundo ele, a adoção de diretrizes claras pode contribuir para orientar a conduta dos magistrados e reforçar os princípios que devem nortear a atuação judicial. “Fala em uma boa hora sobre um código de ética. Justiça começa de casa e é preciso provar que está à altura da jurisdição”, afirmou.

A discussão sobre um código de ética surge em um contexto de debates sobre a necessidade de maior padronização de comportamentos e maior rigor na fiscalização de condutas dentro do Judiciário.

Importância da confiança institucional

As declarações de Ayres Britto evidenciam a centralidade da confiança pública para o funcionamento do sistema de Justiça. Em democracias, o Judiciário desempenha um papel essencial na mediação de conflitos e na garantia de direitos, o que exige não apenas competência técnica, mas também integridade moral.

Especialistas apontam que episódios que colocam em dúvida a conduta de autoridades podem afetar a percepção da sociedade sobre a imparcialidade das decisões judiciais. Nesse sentido, discursos como o de Britto reforçam a necessidade de vigilância constante sobre padrões éticos.

Reflexos no cenário jurídico e político

O posicionamento do ex-ministro também dialoga com um cenário mais amplo de debate sobre governança, transparência e responsabilidade no setor público. A cobrança por integridade não se restringe ao Judiciário, mas se estende a todos os poderes.
No entanto, devido ao papel singular do STF e do STJ como instâncias máximas de interpretação da lei, a exigência de reputação ilibada ganha ainda mais relevância nesses tribunais.

A repercussão do discurso deve continuar nos próximos dias, especialmente diante das discussões sobre ética e conduta no Judiciário. A eventual implementação de um código de ética poderá representar um passo importante para consolidar essas diretrizes e fortalecer a credibilidade das instituições.