As recentes mudanças na Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que ampliaram a responsabilidade das empresas sobre riscos psicossociais no ambiente de trabalho, começaram a provocar uma nova discussão dentro do mercado corporativo: a relação entre saúde financeira dos trabalhadores e o avanço de problemas emocionais, afastamentos e queda de produtividade.
Em meio ao crescimento de casos de ansiedade, burnout e esgotamento emocional, empresas passaram a perceber que parte importante desse desgaste psicológico nem sempre nasce exclusivamente no ambiente profissional. Em muitos casos, a pressão financeira acumulada fora do trabalho tem sido apontada como um dos principais fatores de impacto sobre a saúde mental dos colaboradores. O cenário acompanha um quadro mais amplo de endividamento no Brasil. Dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), apontam que mais de 80% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida atualmente. Em média, cerca de 30% da renda familiar está comprometida com pagamentos financeiros.
Dentro das empresas, os reflexos começaram a aparecer em indicadores como aumento do absenteísmo, crescimento de afastamentos emocionais, pedidos frequentes de adiantamento salarial, uso recorrente de empréstimos consignados e queda no rendimento profissional. Especialistas também observam avanço do chamado presenteísmo, situação em que o funcionário permanece fisicamente no trabalho, mas sem condições emocionais ou psicológicas de manter produtividade, concentração e estabilidade durante a jornada. Uma análise realizada pelo movimento Somos Longevos em uma empresa brasileira do setor da saúde identificou que 45% dos colaboradores estavam endividados. Outros 12% já apresentavam quadro de superendividamento.
O levantamento envolveu cerca de 1.500 funcionários, além de 500 trabalhadores terceirizados e 300 médicos. O estudo também apontou crescimento recorrente de solicitações de empréstimos consignados, pedidos de antecipação salarial e demandas por reajustes motivadas por desorganização financeira pessoal.Segundo a CEO do movimento Somos Longevos, Tania Machado, o peso financeiro passou a interferir diretamente no comportamento, na estabilidade emocional e no desempenho profissional dos trabalhadores.
“Muitas pessoas chegam emocionalmente esgotadas. A cabeça está na dívida, na cobrança, no empréstimo. O colaborador está presente fisicamente, mas mentalmente consumido pelo problema financeiro”, afirma a executiva.
Ela destaca ainda que o problema deixou de atingir apenas trabalhadores de baixa renda e passou a alcançar diferentes níveis hierárquicos dentro das organizações, incluindo profissionais altamente qualificados e cargos de liderança.
“A questão financeira não aparecia apenas entre profissionais de baixa renda. Ela atravessava diferentes níveis da organização, inclusive profissionais altamente qualificados e lideranças”, ressalta Tania Machado. Após identificar o cenário, a empresa analisada implantou um programa voltado à chamada longevidade financeira, reunindo ações de educação financeira, terapia financeira, apoio emocional preventivo, workshops e acompanhamento individual de funcionários considerados em situação crítica.
O projeto também passou a oferecer ferramentas para reorganização financeira pessoal e prevenção ao superendividamento.
Segundo o levantamento, os resultados começaram a aparecer poucos meses após a implantação das medidas. A empresa registrou redução estimada de 18% no absenteísmo e queda de 22% nos afastamentos emocionais. A estimativa interna aponta economia anual de aproximadamente R$ 420 mil relacionada à redução das faltas no trabalho. Já a queda nos afastamentos emocionais representou impacto estimado de R$ 680 mil ao ano em custos assistenciais, substituições de profissionais e perdas operacionais.
O estudo também identificou aumento estimado de produtividade entre 9% e 12%, associado à redução do presenteísmo e à melhora da estabilidade emocional das equipes. Com isso, o impacto indireto calculado pela empresa alcançou aproximadamente R$ 1,2 milhão anuais.
Para especialistas em saúde corporativa, a tendência é que temas ligados à educação financeira passem a ocupar espaço cada vez maior dentro das estratégias de bem-estar organizacional, especialmente após as mudanças da NR-1, que ampliaram a atenção sobre riscos psicossociais no trabalho. A avaliação é que empresas começaram a perceber que ansiedade, burnout e esgotamento emocional não podem mais ser tratados apenas como problemas internos do ambiente corporativo, mas também como reflexos das dificuldades financeiras enfrentadas pelos trabalhadores fora do expediente.
“Durante muito tempo, as empresas olharam para ansiedade, burnout e afastamentos como problemas isolados do ambiente de trabalho. Agora começa a ficar mais claro que, muitas vezes, o adoecimento já chega junto com o colaborador. A pressão financeira virou um fator silencioso de impacto emocional, produtividade e sustentabilidade dentro das organizações”, conclui Tania Machado.