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Taxi Driver aos 50 anos: o vigilante que mudou o cinema
Cinco décadas depois, a obra-prima de Martin Scorsese continua sendo um retrato inquietante da solidão, da violência urbana e dos fantasmas escondidos sob as luzes de Nova York.
01/06/2026 10h00
Por: Pero Batista
Pôster de Taxi Driver

Poucos filmes envelheceram tão bem quanto Taxi Driver. Cinquenta anos após sua estreia, a obra-prima de Martin Scorsese continua sendo um dos retratos mais desconfortáveis, hipnóticos e fascinantes já feitos sobre solidão, violência e alienação urbana.

Muito antes dos super-heróis sombrios dominarem os cinemas, Travis Bickle já caminhava pelas ruas como um vigilante torturado. Ex-combatente da Guerra do Vietnã, motorista de táxi durante as madrugadas e observador obsessivo da decadência ao seu redor, Travis se tornou uma das figuras mais influentes da cultura pop. Não por acaso, muitos enxergam nele uma das inspirações para personagens como Rorschach, de Watchmen. O diário narrado, o desprezo pela corrupção da cidade e a sensação constante de isolamento ajudaram a moldar o arquétipo do vigilante moderno.

Martin Scorsese e Robert De Niro

Mas Taxi Driver não seria tão poderoso sem o cenário que o cerca. O filme também funciona como uma cápsula do tempo de uma Nova York que já não existe. Scorsese filma uma cidade suja, degradada e tomada por violência, prostituição e abandono. É uma Nova York distante dos cartões-postais, mais próxima de um organismo doente. Quando Travis descreve as ruas como um esgoto que precisa ser lavado, o espectador entende que não está apenas ouvindo um homem perturbado. Está ouvindo alguém que se tornou produto daquele ambiente.

O que torna o personagem tão fascinante é justamente sua complexidade. Travis não é herói. Não é vilão. Não é exemplo para ninguém. É racista, preconceituoso, socialmente incapaz e profundamente instável. Ao mesmo tempo, existe algo de trágico em sua busca desesperada por significado. Robert De Niro entrega uma das maiores atuações de sua carreira ao transformar o personagem em um estudo psicológico cheio de camadas. Cada olhar, cada silêncio e cada explosão de violência revelam alguém perdido dentro da própria mente.

Grande parte da força do filme também está na direção de Scorsese. Ainda relativamente jovem na época, ele demonstrava uma precisão impressionante para escolher o enquadramento certo, o movimento de câmera certo e o momento exato para aumentar a tensão. Tudo parece calculado para colocar o espectador dentro da cabeça de Travis. O resultado é uma experiência que se torna ainda mais rica a cada nova revisão.

Outro elemento fundamental é a trilha sonora composta por Bernard Herrmann, em seu último trabalho antes de falecer. Entre o jazz melancólico e os momentos de tensão crescente, a música adiciona uma camada quase fantasmagórica à narrativa. É impossível imaginar Taxi Driver sem aqueles saxofones que transformam as madrugadas de Nova York em um sonho febril.

Martin e Bob, foto por Steve Shapiro 

Também merece destaque a impressionante atuação de Jodie Foster. Com apenas 12 anos durante as filmagens, ela interpreta Iris, uma adolescente explorada pela prostituição. Em um papel extremamente delicado e controverso para a época, Foster entrega uma maturidade artística rara, ajudando a construir algumas das cenas mais memoráveis do longa.

Judie Foster no set de Taxi Driver

Cinco décadas depois, Taxi Driver continua relevante porque fala sobre temas que permanecem atuais. Solidão, radicalização, ressentimento social e a busca desesperada por pertencimento continuam fazendo parte da vida moderna. Talvez seja por isso que o filme pareça cada vez melhor a cada nova exibição. O mundo mudou, mas Travis Bickle continua ali, dirigindo pelas ruas durante a madrugada, observando tudo em silêncio e nos obrigando a encarar partes da sociedade que preferiríamos ignorar.

Elenco de Taxi Driver atualmente

Poucos filmes conseguem atravessar gerações sem perder força. Taxi Driver não apenas conseguiu. Tornou-se uma referência permanente para o cinema moderno e um dos maiores trabalhos de Martin Scorsese. Cinquenta anos depois, continua sendo uma viagem perturbadora ao coração da escuridão humana.