O cansaço constante, a sonolência excessiva, alterações no peso, queda de cabelo e mudanças no funcionamento intestinal costumam ser associados ao estresse da rotina ou ao avanço da idade. No entanto, especialistas alertam que esses sintomas também podem indicar problemas na tireoide, condição que afeta principalmente mulheres acima dos 40 anos.
Um levantamento realizado pela Fundação Instituto de Pesquisa e Estudo de Diagnóstico por Imagem (FIDI) revelou que, entre 2021 e 2025, foram identificados 179.152 exames com alterações na tireoide em unidades de diagnóstico por imagem no Brasil. Segundo os dados, cerca de 85% dos casos ocorreram em mulheres, mantendo uma proporção estável de seis diagnósticos femininos para cada caso masculino.
O estudo reforça o alerta feito durante o Dia Internacional da Tireoide, celebrado em 25 de maio, e mostra que a maior concentração de diagnósticos ocorre entre pessoas de 40 a 65 anos. O volume de exames aumenta progressivamente com o avanço da idade, atingindo o pico próximo aos 60 anos.
A tireoide é uma glândula localizada na região anterior do pescoço e desempenha papel fundamental no funcionamento do organismo, sendo responsável pela produção de hormônios que regulam o metabolismo, a temperatura corporal, os batimentos cardíacos e diversas funções essenciais do corpo.
Entre as alterações mais frequentes está o hipotireoidismo primário, condição caracterizada pela produção insuficiente de hormônios tireoidianos. Na maioria dos casos, a doença está relacionada a processos autoimunes, como a tireoidite de Hashimoto.
Segundo o médico radiologista, ultrassonografista e especialista em tireoide da FIDI, Dr. Harley De Nicola, o hipotireoidismo é mais comum porque biologicamente a glândula tende a perder função com mais facilidade do que produzir hormônios em excesso.
“O hipotireoidismo é mais comum porque existe uma predisposição biológica, ou seja, quando ocorre alteração é mais fácil a glândula ir perdendo a função do que produzir hormônios em excesso”, explica o especialista.
Além das alterações hormonais, os nódulos tireoidianos também chamam atenção pela alta incidência na população. Estimativas apontam que cerca de 50% das pessoas podem apresentar algum nódulo na tireoide ao longo da vida. Apesar disso, apenas uma pequena parcela desses casos está relacionada ao câncer.
Mesmo assim, os especialistas alertam para a importância do diagnóstico precoce. De acordo com estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar 16.450 novos casos de câncer de tireoide em 2026.
A maior parte dos diagnósticos ocorre em mulheres. Segundo o levantamento, aproximadamente 13.310 novos casos devem atingir o público feminino, enquanto os homens devem representar cerca de 3.140 registros.
Especialistas explicam que as mulheres possuem predisposição genética maior para doenças autoimunes e alterações hormonais, o que contribui para o aumento da incidência de problemas na tireoide.
“O sistema imunológico feminino costuma ser mais ativo e reativo. Isso traz vantagens no combate a infecções, mas também aumenta o risco de o organismo atacar o próprio corpo”, afirma Dr. Harley.
Outro fator que contribuiu para o crescimento dos diagnósticos nos últimos anos foi o avanço dos exames de imagem, especialmente da ultrassonografia. Segundo a FIDI, houve aumento significativo na detecção de nódulos suspeitos classificados pela escala TI-RADS, utilizada para avaliar o risco de malignidade.
Os casos classificados como suspeitos passaram de cerca de 5 mil em 2021 para 13 mil em 2025. Para os especialistas, isso reflete o aprimoramento dos critérios de análise por imagem e a maior capacidade de identificar lesões que merecem acompanhamento mais cuidadoso.
Apesar do aumento dos diagnósticos, os médicos reforçam que a maioria dos cânceres de tireoide apresenta excelente prognóstico e costuma ser descoberta ainda em estágio inicial.
“Hoje em dia faz-se muito mais diagnósticos, principalmente devido à realização de ultrassom, levando à identificação de muitos tumores pequenos e de baixo risco que antes provavelmente nunca seriam descobertos”, destaca o médico.
Entre os sinais que merecem atenção estão rouquidão persistente, presença de nódulos endurecidos no pescoço, aumento de gânglios e histórico familiar da doença. Ainda assim, especialistas alertam para o combate a mitos relacionados à tireoide.
“É comum ouvirmos que todo nódulo tireoidiano é câncer, mas isso não é verdade. O nódulo está presente em cerca de 50% da população e apenas aproximadamente 5% são malignos”, reforça Dr. Harley.
O Dia Internacional da Tireoide também busca conscientizar a população sobre a importância de investigar sintomas persistentes e realizar acompanhamento médico adequado, evitando tanto o medo desnecessário quanto o atraso no diagnóstico de doenças que podem ser tratadas com sucesso quando identificadas precocemente.