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Em clima de Copa, Alex Poatan bate na trave em UFC na Casa Branca
Brasileiro é nocauteado por Ciryl Gane e vê sonho do terceiro cinturão do UFC chegar ao fim.
15/06/2026 02h27 Atualizada há 2 dias
Por: Guilherme Valentin de Olveira
Alex Poatan Pereira foi nocauteado por Ciryl Gane no UFC Freedom 250. Foto: Getty Images.

O mundo das lutas presenciou um dos momentos mais chocantes da história das Artes Marciais Mistas. Alex Sandro Silva Pereira, o Poatan, foi nocauteado pelo francês Ciryl Gane na disputa pelo cinturão interino dos pesos-pesados do UFC. Caso saísse vitorioso, o brasileiro se tornaria o primeiro lutador da história da organização a conquistar títulos em três categorias de peso diferentes. 

A Casa Branca, residência oficial do Presidente dos Estados Unidos, sediou o UFC Freedom 250, evento realizado em celebração aos 250 anos da independência do país. A ocasião reuniu cerca de 4.500 espectadores, entre membros das Forças Armadas americanas, convidados do presidente, convidados de Dana White e da TKO, empresa proprietária do UFC, além de autoridades internacionais, celebridades, empresários e patrocinadores. O evento teve um custo estimado de US$ 60 milhões, valor investido principalmente na grandiosa estrutura montada para a ocasião. Além das comemorações pela independência americana, tradicionalmente celebrada em 4 de julho, a noite também marcou a celebração dos 80 anos de Donald Trump. Ao todo foram sete lutas realizadas sendo duas delas, disputas por cinturão.

O cenário esportivo dos Estados Unidos vive um momento de grande visibilidade internacional. Além de sediar o UFC Freedom 250 na Casa Branca, o país divide com Canadá e México a organização da Copa do Mundo de futebol, o maior evento esportivo do planeta em audiência global e alcance cultural. No entanto, apesar dos holofotes voltados para o território americano, os anfitriões esbarraram em um “pequeno” problema: tanto no octógono quanto nos gramados, o protagonismo acabou ficando nas mãos de atletas e seleções estrangeiras. 

No futebol, isso é compreensível. Afinal, os Estados Unidos não possuem a mesma tradição que as grandes potências da modalidade. Porém, quando o assunto são os esportes de combate, a situação é diferente. 

Historicamente, o país lidera em número de campeões e títulos nas principais organizações e competições, incluindo o MMA. Dos sete combates do card, oito atletas americanos estiveram em ação. Apesar da importância da luta principal, o início do card não foi dos mais animadores para os anfitriões. Os representantes americanos tiveram dificuldades ao longo da noite e acumularam resultados abaixo do esperado, aumentando a pressão para os dois combates que encerrariam o evento. Diante desse cenário, as atenções se voltaram para Justin Gaethje e Ciryl Gane, responsáveis pelas lutas mais importantes do UFC Freedom 250.

O desfecho, porém, acabou sendo melhor do que os americanos poderiam imaginar. Contra as expectativas de grande parte do público especializado, Gaethje conquistou o cinturão linear dos leves ao derrotar Ilia Topuria, enquanto Gane frustrou o sonho do histórico terceiro cinturão de Alex Poatan. Se o card havia começado de forma preocupante para os anfitriões, terminou em clima de celebração, com o público presente na Casa Branca comemorando duas derrotas de alguns dos atletas mais populares e dominantes do esporte.

A VITÓRIA DO AZARÃO

Embora não estivessem entre os atletas mais populares do UFC na atualidade, Justin Gaethje carregava a responsabilidade de representar os Estados Unidos na luta mais importantes do evento. 

Selecionado como o principal representante americano no card, ele chegou ao combate como campeão interino da divisão até 70 kg. O cinturão provisório foi conquistado após o campeão linear, Ilia Topuria, anunciar uma pausa na carreira para lidar com questões judiciais relacionadas ao seu casamento. Dessa forma, no UFC 324, realizado em janeiro deste ano, Gaethje derrotou o britânico Paddy Pimblett por decisão unânime dos juízes e garantiu a oportunidade de enfrentar o campeão na Casa Branca.

Embora seja um dos lutadores mais empolgantes do UFC, Justin Gaethje atravessou uma fase da carreira cercada de questionamentos. Conhecido pelo apelido "The Highlight", ou "O Destaque", em razão de seu estilo agressivo e focado na trocação franca, o americano se aproxima dos 40 anos, acumula uma longa quilometragem no esporte e vem de um histórico recente de nocautes sofridos. Além disso, já fracassou nas duas disputas de cinturão linear que realizou. Na primeira, foi finalizado por Khabib Nurmagomedov. Na segunda, acabou nocauteado pelo brasileiro Charles "Do Bronx" Oliveira, adversário que Topuria derrotou sem grandes dificuldades ao vencer por nocaute ainda no primeiro round.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos atravessam um período de escassez de campeões no UFC, especialmente entre as categorias masculinas. Sean Strickland era o único campeão linear americano da organização, mas havia conquistado o cinturão recentemente ao derrotar Khamzat Chimaev no UFC 328, em maio deste ano, o que inviabilizou sua participação no card da Casa Branca. Soma-se a isso o fato de Strickland ter se envolvido em polêmicas recentes após críticas direcionadas ao governo americano e ao atual presidente, fatores que também ajudaram a ser removido do evento. Analisando de maneira fria, a oportunidade acabou caindo no colo de Gaethje por ser o único americano disponível para estrelar a luta principal do evento mais importante do ano.

A situação de Topuria era completamente diferente. Após chegar a um acordo judicial que encerrou o processo movido por sua ex-esposa, o então campeão voltou a concentrar suas atenções exclusivamente na carreira. Dono de um dos estilos mais eficientes e populares da história recente do UFC, El Matador entrou no octógono como favorito, mas encontrou pela frente uma atuação inspirada de Justin Gaethje.

Em uma luta predominantemente de boxe, o americano conseguiu conectar os golpes mais contundentes e levou vantagem na maior parte dos rounds. O momento decisivo aconteceu quando Gaethje feriu o olho direito de Topuria, comprometendo seriamente sua visão. O espanhol ainda encontrou espaços para encaixar boas sequências e mostrou por que era considerado um dos melhores lutadores do planeta, mas do outro lado estava um adversário conhecido por sua resistência quase sobre-humana. Fiel ao apelido "The Highlight", Gaethje absorveu golpes duros sem recuar, manteve o ritmo do início ao fim e demonstrou o coração de um verdadeiro veterano em busca da maior conquista de sua carreira.

Ao final do quarto round, porém, a situação se tornou insustentável para Topuria. Sem conseguir enxergar adequadamente, o campeão viu a sua equipe solicitando à arbitragem para determinar o encerramento da luta. Ele ainda protestou contra a decisão, mas os oficiais entenderam que não havia condições seguras para a continuidade do combate. Com isso, Justin Gaethje foi declarado vencedor por nocaute técnico e conquistou o tão sonhado cinturão linear dos pesos-leves, impondo a primeira derrota da carreira profissional de Ilia Topuria.

Justin Gaethje quebrou a invencilidade de Ilia Topuria e unificou os cinturões do peso-leve do UFC. Foto: Getty Images.

 

A LUTA CO-PRINCIPAL

Poatan se tornou um fenômeno cultural entre os fãs de luta. De poucas palavras, com uma expressão intimidadora e um poder de nocaute assustador, ele conquistou em pouco tempo o respeito e a admiração tanto do público mais hardcore quanto dos espectadores casuais. Em suas 10 lutas no UFC até então, oito terminaram em nocaute, ajudando a consolidar sua imagem como o nocauteador mais temido da atualidade, um perfil que sempre encontra grande apelo entre os fãs americanos.

Apesar de aparecer como azarão nas casas de aposta, algo compreensível por se tratar de sua estreia entre os pesos-pesados, já que iniciou sua trajetória no esporte como peso-médio, seu adversário também não chegava cercado por grande entusiasmo popular.

Ciryl Gane surgiu há alguns anos como uma promessa de campeão dominante para uma divisão que vivia um período de pouca repercussão. No entanto, em quatro disputas de cinturão até então, sua única conquista havia sido o título interino em 2021. Desde então, acumulou derrotas para Francis Ngannou e Jon Jones, além de uma luta sem resultado contra o atual campeão linear, Tom Aspinall, após acertar uma dedada irregular no olho do britânico.

O episódio gerou forte repercussão negativa. Nas semanas seguintes, parte do público passou a resgatar momentos de lutas anteriores em que Gane também aplicou golpes irregulares, aumentando a desconfiança e deixando muitos fãs em estado de alerta para o confronto contra o brasileiro.

Inicialmente, o adversário de Alex seria justamente o campeão linear Tom Aspinall. Porém, a lesão ocular sofrida pelo britânico após o golpe irregular de Gane, somada aos desentendimentos recentes entre Aspinall e o presidente do UFC, Dana White, acabou abrindo caminho para que o francês recebesse sua quinta oportunidade de disputar um cinturão da organização. 

A luta começou de maneira lenta, com ambos os atletas se estudando. Gane, porém, tomou a iniciativa e buscou atacar a perna esquerda de Alex com chutes na panturrilha. Poatan até respondeu alguns desses golpes, mas os lutadores pareciam estar em ritmos diferentes, com o francês consideravelmente mais rápido e conseguindo conectar ataques com maior precisão. Ainda assim, faltando poucos segundos para o fim do primeiro round, Alex acertou um direto de direita em cheio no rosto de Gane, golpe que abalou o francês e levantou o público presente.

Por outro lado, o brasileiro aparentava estar bastante desgastado, e essa era justamente uma das preocupações dos especialistas: se ele conseguiria transferir sua resistência para a categoria dos pesos-pesados. Porém, a história não teve o desfecho esperado.

Após conectar mais alguns golpes, Ciryl Gane derrubou Alex Pereira com um jab de contragolpe e passou a castigá-lo com cotoveladas no solo. Poatan resistiu bravamente e até conseguiu se levantar, mas já estava atordoado. Gane continuou pressionando e conectando golpes até encurralar o brasileiro na grade. Quando Alex caiu de costas, sem condições de se defender adequadamente, o árbitro Herb Dean interrompeu o combate.

Com a vitória por nocaute técnico, Ciryl Gane conquistou pela segunda vez o cinturão dos pesos-pesados do UFC e colocou um fim no sonho do triplo campeonato de Alex Poatan Pereira. Mas seria esse o final da corrida do brasileiro por um título inédito? 

Alex Poatan foi nocauteado no 2º round. Foto: Getty Images.

POATAN RETORNARÁ

Quando paramos para analisar a trajetória de Alex Poatan, ela parece ter sido escrita por um premiado roteirista de cinema.

Nascido em uma família humilde na periferia de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, Alex precisou abandonar os estudos aos 12 anos para ajudar no sustento de casa. Trabalhou como servente de pedreiro e, posteriormente, como borracheiro, profissão que se tornaria uma das marcas mais lembradas de sua história. Foi também nesse período que desenvolveu problemas com o alcoolismo, chegando a beber diariamente.

Percebendo que dificilmente conseguiria abandonar o vício sozinho, em 2009, aos 21 anos, começou a praticar kickboxing com o objetivo de ocupar a mente, cuidar do físico e se afastar das bebidas. Desde os primeiros treinos, demonstrou talento e um poder de nocaute acima da média. O que começou como uma tentativa de mudar de vida rapidamente se transformou em paixão. Alex permaneceu no esporte, alcançou a sobriedade em 2012 e construiu uma carreira histórica no kickboxing antes mesmo de migrar para o MMA. Entre títulos nacionais e internacionais, destaca-se o duplo campeonato simultâneo nas categorias peso-médio e meio-pesado do Glory Kickboxing, o maior evento de trocação do planeta, sendo até hoje o único lutador da história da organização a realizar tal feito.

A alcunha de Poatan, que ele adotou durante o início de sua carreira e tornou-se sua identidade nas lutas, foi dado por seu primeiro treinador, Belocqua Wera, que também tinha raízes indígenas e o estimulou a descobrir e resgatar sua ancestralidade. Alex descobriu que seus avós, tanto maternos quanto paternos eram indígenas de Etnia Pataxó, povo que habita que habita tradicionalmente o sul da Bahia e o norte de Minas Gerais. Ele foi apadrinhado pelo Cacique Ubiranan Pataxó, líder da Aldeia Siratã Mantxó, localizada em Coroa Vermelha, na Bahia. Ubiranan 

Além dos recordes na organização, Alex foi responsável por duas das cinco derrotas que Israel Adesanya, seu grande rival no mundo das lutas, sofreu no kickboxing, sendo até hoje o único atleta a nocauteá-lo na modalidade. Muitos teorizam que essa luta marcou a migração de Adesanya para o MMA. Essa rivalidade ajudaria a impulsionar a carreira de Poatan nos octógonos e, em 2021, quando assinou com o UFC, Adesanya era o campeão dominante dos pesos-médios. Portanto, era apenas uma questão de tempo até que seus caminhos se cruzassem novamente.

Um dos momentos mais marcantes da rivalidade aconteceu quando Adesanya, já consolidado no MMA, criticou a repercussão de sua derrota para Alex, alegando que, com o passar dos anos, ele seria lembrado como um campeão histórico, enquanto o brasileiro estaria sentado em algum bar o assistindo e dizendo: "Eu já venci aquele cara". A declaração acabou servindo como narrativa e combustível para que Poatan fosse atrás dele, mas desta vez dentro do octógono.

Alex chegou ao maior evento de MMA do mundo como um rolo compressor, precisando de apenas três lutas para disputar o cinturão dos médios contra seu maior rival. No dia 12 de novembro de 2022, no UFC 281, após cinco rounds de guerra, nos quais o brasileiro levava a pior na pontuação, Poatan conectou seu famoso cruzado de esquerda, abalando Adesanya. Em seguida, desferiu uma sequência de golpes com toda a força que lhe restava para nocautear e destronar o campeão, conquistando o cinturão dos pesos-médios do UFC com apenas quatro lutas na organização, uma das corridas de título mais rápidas da história do evento.

Com um ano e oito meses de UFC, ele migrou para os meio-pesados e precisou de apenas sete lutas para conquistar o cinturão da categoria. Fez isso ao nocautear o tcheco Jiří Procházka no UFC 295, edição comemorativa dos 30 anos da organização. Curiosamente, ambos os cinturões foram conquistados no Madison Square Garden, em Nova York, local que se tornou um amuleto de sorte para Poatan.

O sucesso de Alex crescia a cada combate e, aos poucos, uma identidade de ídolo internacional era construída, com seu famoso bordão "Chama" sendo repetido ao redor do planeta. Ele foi o escolhido para protagonizar a luta principal do UFC 300, ocasião em que brutalizou Jamahal Hill e realizou sua primeira defesa de cinturão.

Após essa vitória, ainda defenderia o título em mais duas oportunidades, uma contra Jiří Procházka, em uma revanche, e outra contra Khalil Rountree Jr. Porém, no UFC 313, realizado em março de 2025, acabou sendo superado pelo russo Magomed Ankalaev por decisão unânime dos juízes.

Devido à idade considerada avançada para um lutador profissional e à alta quilometragem acumulada no mundo das lutas, muitos passaram a acreditar que aquele poderia ser o fim de Poatan no mais alto nível. No entanto, o indígena brasileiro se recusou a jogar a toalha. Em outubro daquele mesmo ano, voltou a enfrentar Ankalaev e, movido pelo sentimento de vingança, precisou de apenas 1 minuto e 20 segundos para nocautear o russo e recuperar seu cinturão. O resultado serviu para provar duas coisas: que as leis da natureza parecem não se aplicar a ele e que, naquele momento, era o melhor lutador do planeta.

A história de Alex Poatan sempre foi marcada pela superação de obstáculos, da pobreza e do trabalho infantil ao alcoolismo e às derrotas dentro das lutas. Mas, se existe algo que o brasileiro já demonstrou ao longo de sua trajetória, é a capacidade de se reinventar nos momentos mais difíceis. Após o combate, durante a entrevista com Joe Rogan ainda no octógono, Poatan reconheceu o mérito de Ciryl Gane, agradeceu o apoio dos fãs e deixou claro que sua jornada está longe do fim. A derrota certamente representa um duro golpe em sua carreira, mas para alguém que construiu sua história desafiando probabilidades, poucos acreditam que este seja o capítulo final. Se o passado serve de referência, o mais provável é que Poatan utilize esse revés como combustível para retornar ainda mais forte. 

Vale lembrar que a conquista de três cinturões em categorias diferentes não é inédita no MMA. Em março de 2024, o russo Anatoly Malykhin conquistou o cinturão dos pesos-médios do ONE Championship ao derrotar Reinier de Ridder no ONE 166, somando o título aos cinturões dos meio-pesados e dos pesados, que mantinha simultaneamente na organização. No entanto, o UFC é amplamente reconhecido como a principal organização de MMA do mundo, reunindo grande parte dos atletas considerados os melhores de suas respectivas categorias. Por isso, conquistar um cinturão da organização costuma representar o posto de melhor lutador do planeta naquela faixa de peso.  

Independente do resultado deste domingo, Alex Poatan Pereira é um membro do hall da fama dos esportes de combate e o maior lutador brasileiro de todos os tempos. Ele voltará ainda melhor, CHAMA!

Alex "Poatan" Pereira, o maior lutador brasileiro de todos os tempos.  Foto: Chris Unger/Zuffa LLC via Getty Images

 

CONFIRA A TRAJETÓRIA DE ALEX POATAN PEREIRA NO UFC: