No último sábado, a seleção brasileira de futebol empatou com o Marrocos por 1 a 1. Se não fosse o gol de Vinícius Júnior, o time sairia derrotado. Mais do que uma performance questionável, os protagonistas dessa partida ajudam a perceber que a seleção se transforma cada vez mais num símbolo de pouco espelho. Isso é, pouca referência em termos morais e profissionais. A situação piora ainda mais quando o espectador passa a não aprovar o jeito de jogar do time, o quê significa um ataque ao método do próprio técnico. Quando o entretenimento se esvazia, sobre o quê?
Um banco. Não há metáfora melhor para explicar o estado da torcida do que a realidade que estava diante dos seus olhos. Depois de mais uma lesão na panturrilha, Neymar não jogou na estreia e, sentado, observou os colegas. Mas um banco pode não ser só isso. Também pode significar a espera pelo momento certo e a esperança de que algo vá mudar. Quando Carlo Ancelotti puxou os reservas, ele tinha o desejo de todo técnico: enxergar junto à torcida uma equipe melhor.
Há também uma imagem não tão positiva da espera. Neymar começou na pobreza, teve o talento descoberto, enriqueceu e chegou a jogar em clubes disputadíssimos como o Barcelona e o Paris Saint-Germain. Décadas depois, ele enfrentou várias lesões e foi parar no Santos, time em que estreou a carreira. Dados da Transfermarkt revelaram que Neymar caiu de R$ 1 bilhão para R$ 58,2 milhões, mesmo valor de mercado que tinha aos 18 anos. No meio disso, casos de repetidas infidelidades do jogador com parceiras se tornaram notórios.
A imagem que transparece é a de um jogador que adquiriu consciência do talento que tem. Entre jantares caros e a percepção de ter habilidades que muitos não alcançarão, ele espera pela aposentadoria com um desempenho protocolar. Isso deveria bastar para o mercado, afinal, a atuação dele está acima da média. Não exatamente. Num mundo em que jogadores são tratados como produtos, alguns se acomodam e esquecem de se renovar e mostrar evolução. Um produto velho na prateleira corre o risco de perder muitos patrocinadores e clientes.
Ao ser convocado, uma das primeiras ações de Neymar foi destacar as publicidades que fez para apostas esportivas. O setor corroeu tanto a renda dos mais pobres que o Governo Federal tomou medidas para bloquear o acesso de beneficiários do Bolsa Família às apostas. Para um jogador que já teve uma vida humilde, o sofrimento dessas famílias parece uma súplica tão, tão distante quanto um reino encantado.
Embora Neymar não tenha jogado, fica a sensação de que a seleção a entrar em campo o representou mais do que qualquer outra coisa. Com valor de mercado em pouco mais de R$ 800 milhões, Vinícius Júnior permanece um dos jogadores mais antirracistas da Liga Espanhola. Em contraste, ele também faz propagandas para bets e namorou uma grande influenciadora que divulgava apostas aos seguidores. Ainda assim, talvez, a seleção se torne espelho mais adequado à sociedade se focar na contemporaneidade e competência que ele apresenta.
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