Na democracia brasileira, é conhecido um modo de alianças em que os políticos se alinham ao governo ou oposição. Isso depende dos valores que eles dizem defender, mas há uma característica comum entre todos: lealdade. A família Bolsonaro sempre mobilizou esse valor de maneira diferente do senso comum. Desde 2018, quando Jair Bolsonaro foi eleito, a presença digital foi importante para a família se comunicar com o eleitor.
Levantamento da Sólon Data mostrou que o patriarca é o político do país mais seguido no Instagram. Flávio, Michele e Eduardo ocupam a 5a, 6a e 7a posição, respectivamente. Esses dados demonstram um cultivo de base eleitoral bastante dependente do engajamento virtual, mas também significam ter uma massa à disposição para retaliar oponentes políticos nas redes sociais. Com isso, os Bolsonaro construíram uma lealdade excessivamente inflamada por algoritmos.
A família também educou eleitores a não serem leais ao que ela defende, mas à ela como a única capaz de carregar certas bandeiras ideológicas. Eleitos deputados federais por São Paulo entre 2019 e 2022, Alexandre Frota e Joice Hasselmann romperam com a família e não alcançaram nem 10 mil votos na eleição seguinte. Em 2024, Frota se elegeu vereador por Cotia (SP). Hasselmann, que chegou a usufruir de 1 milhão de votos, não teve a mesma sorte nas eleições municipais. Eleita deputada estadual pelo estado com 2 milhões de votos, Janaina Paschoal foi reduzida ao cargo de vereadora e a quase 50 mil votos.
Isso demonstra uma lealdade eleitoral que pode levar os políticos ao chão tão rápido quanto ascenderam aos céus. É efêmera e personalista, associada com frequência à imagem do pai, dos filhos e ao sobrenome. Na política, os votantes podem se sentir traídos de vários modos e é uma sensação tão antiga quanto a democracia ateniense. Os Bolsonaro ensinaram que deveriam ser os únicos aplaudidos por reivindicar ideais que muitos outros o fazem e que divergir deles seria uma traição ao eleitor. Assim, formou-se um cidadão mais preocupado com a discordância de políticos em relação aos que ele idolatra e menos com o fato de, talvez, discordarem do que ele pensa e acredita.
Se trair os Bolsonaro é trair o eleitor, o que acontece quando a família trai a si? A mesma lógica que essa massa de eleitores aplicou com ex-aliados: uma retirada ágil e uma queda brusca de votos. Condenado a 4 anos e 2 meses de prisão pelo Supremo Tribunal Federal, Eduardo Bolsonaro influenciou autoridades estadunidenses a sancionarem instituições do Brasil. Apesar do processo ser sobre coação, o eleitor indicou em todas as pesquisas o desgosto maior pelo impacto econômico e não tanto pela interferência no Judiciário.
Então, a traição se deu porque uma parte considerável da base, que costuma ter fortes críticas à condução econômica do Partido dos Trabalhadores, não reconheceu mais o Eduardo no próprio Eduardo. Afinal, do ponto de vista desses eleitores, como uma “economia desastrosa” se beneficiaria de medidas estrangeiras que prejudicam vários empresários? De acordo com a Quaest, Eduardo colheu uma rejeição de 68% no ano passado.
Em Santa Catarina (SC), o Partido Liberal fechou chapa pura com Carlos Bolsonaro e Caroline de Toni para o Senado. Com o assento em jogo, Esperidião Amin (PP) foi escanteado pelo aliado e governador Jorginho Mello na disputa. Embora a possível não reeleição de Amin possa aposentar um político de idade avançada e trazer perfis mais jovens ao Congresso, não é o que algumas pesquisas indicaram. Entre 1 e 3 de junho, a Futura/Apex ouviu 800 eleitores e Amin liderava as intenções de voto com 48,6%. Carlos vinha em 2° com 37,4%.
A tentativa da família emplacar todos os parentes que pudesse na política colocou De Toni em risco, ou seja, o partido rachou a si. Ao invés de buscar vagas no Rio de Janeiro, onde foi vereador por 24 anos, Carlos preferiu SC. Diante disso, o eleitor catarinense foi forçado a escolher entre dois tipos de bolsonarismo: regional ou personalista. Em outras pesquisas, De Toni ou Carlos aparecem em 1°, o que mostrou um cenário acirrado e inseguro. Talvez, a confusão criada leve apenas dois catarinenses ao Senado.
Na disputa presidencial, o senador Flávio Bolsonaro vinha numa curva ascendente contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Porém, a divulgação de mensagens e áudios pelo The Intercept Brasil, que mostraram Flávio pedindo pagamento ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para o filme Dark Horse, despencaram as porcentagens. A última pesquisa CNT/MDA detectou Lula com 49,3% contra 36,8% de Flávio, no segundo turno.
Depois de múltiplos casos de corrupção associados ao PT, Flávio tentava sustentar uma bandeira anticorrupção reivindicada pelos Bolsonaro. Os negócios com um acusado de fraudar fundos de aposentados e pensionistas fez parte do eleitorado não enxergar mais o Flávio que viu durante anos. Declarações recentes do senador favoráveis ao Bolsa Família e outros temas caros a Lula não retiraram votos do petista, mas ajudaram a descaracterizar a imagem bolsonarista.
Quando contraria um discurso que sempre defendeu, um político corre o risco de não conseguir nenhum voto de quem desgosta dele, mas aumenta sua chance de perder os que já tinha. Não é de espantar que vários institutos registram quedas expressivas entre evangélicos, quem ganha mais de 2 salários mínimos e jovens. Os três segmentos têm rejeição histórica ao PT. Seja por motivo religioso, por ser uma classe média que não se sente valorizada ou por terem crescido no período da operação Lava-Jato.
O estudo mais recente da AtlasIntel apontou Flávio Bolsonaro com rejeição de 52%, a maior entre os presidenciáveis. Jair Bolsonaro consolidou a imagem da família sob a alcunha de “mito”. O que acontece quando o mito se desfaz e só o que sobre é uma realidade humana, falha e velha? Para muitas dinastias, foi o suficiente para a extinção da vida pública.
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