As facções no Amazonas continuam representando um dos principais desafios para as forças de segurança que atuam na região amazônica. Mesmo diante de operações integradas, prisões, apreensões de drogas e investimentos públicos, especialistas avaliam que a extensão territorial do estado, a dificuldade de fiscalização dos rios, a falta de efetivo e suspeitas de corrupção favorecem a permanência de grupos criminosos em corredores estratégicos.
Entre 2024 e 2026, ações realizadas em conjunto por forças estaduais e federais resultaram na prisão de 1.902 pessoas e provocaram um prejuízo estimado em R$ 263,48 milhões ao crime organizado no Amazonas, segundo balanço da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), por meio da Diretoria de Inteligência e Operações Integradas (Diopi).
O levantamento também aponta que o Governo Federal destinou cerca de R$ 265 milhões em recursos diretos para o estado durante o período. O dinheiro foi empregado em infraestrutura, equipamentos e apoio às operações de combate ao narcotráfico e a outras atividades criminosas.
Apesar dos resultados, especialistas afirmam que o impacto das apreensões precisa ser analisado dentro de um cenário em que as organizações criminosas movimentam recursos elevados e conseguem utilizar diferentes rotas para manter suas atividades.

Operações resultaram em toneladas de drogas apreendidas
De acordo com o balanço oficial, as forças de segurança realizaram 20 operações estratégicas e cumpriram 139 mandados de prisão no período analisado.
Também foram contabilizadas centenas de milhares de ações ostensivas e operações de inteligência voltadas à identificação e interrupção das atividades criminosas.
Entre os principais resultados apresentados estão:
- 457.946 ações ostensivas realizadas;
- 164 operações de inteligência executadas;
- 9,1 toneladas de drogas apreendidas;
- 48,8 toneladas de drogas incineradas;
- 471 armas de fogo confiscadas;
- 56 veículos apreendidos;
- 72 toneladas de minério ilícito recolhidas.
Os números mostram que o enfrentamento não está concentrado apenas no tráfico de drogas. A atuação das forças de segurança também alcança crimes ambientais e atividades econômicas ilegais que podem estar relacionadas ao financiamento de organizações criminosas.
O relatório registra ainda o repasse de R$ 1,21 milhão em materiais estruturantes, incluindo drones, viaturas, munições e softwares destinados à extração e análise de dados.
Mais de 90 agentes de segurança também receberam treinamento dentro das ações apoiadas pelo governo federal.

Fronteira e rios são pontos estratégicos
A geografia do Amazonas é um dos principais obstáculos para o trabalho das forças de segurança.
O estado possui uma extensa rede hidrográfica, com comunidades isoladas e áreas de difícil acesso por terra. Em diversas regiões, os rios funcionam como principais vias de transporte, o que também pode ser explorado por grupos envolvidos em atividades criminosas.
A situação ganha maior complexidade nas regiões próximas às fronteiras com Peru e Colômbia, consideradas estratégicas para a circulação de drogas produzidas em outros países.
Uma das principais preocupações está relacionada à utilização das calhas dos rios como corredores para transportar entorpecentes até municípios maiores e, posteriormente, para outras regiões do Brasil e até mercados internacionais.
O cientista político e historiador Joel Paviotti avalia que a capacidade do Estado de fiscalizar toda essa extensão territorial ainda é limitada.
“As principais dificuldades têm relação com a histórica falta de investimento em estrutura que possa possibilitar a alocação e facilitar o trabalho da polícia e das Forças Armadas. Não há como fazer segurança pública sem muito dinheiro investido.”
Segundo o especialista, outro problema está na necessidade de maior integração entre diferentes instituições responsáveis pela segurança.
“A falta de integração entre forças policiais e Forças Armadas também tem sido apontada como um dificultador para o combate ao crime organizado.”
Operação Ágata apreendeu mais de 15 toneladas
Uma das operações recentes que demonstrou a dimensão do problema ocorreu em maio, durante a Operação Ágata Amazônia.
Na ocasião, as Forças Armadas interceptaram mais de 15 toneladas de drogas durante ações realizadas na região de fronteira do Amazonas com Peru e Colômbia.
A maior parte do material, aproximadamente 14 toneladas de maconha do tipo skunk, foi localizada escondida nas proximidades do Rio Javari.
A operação faz parte de ações de patrulhamento e fiscalização realizadas em áreas consideradas estratégicas para a segurança nacional.
Para as autoridades, a presença de forças militares e policiais em regiões de fronteira é importante para dificultar a circulação de drogas, armas e outros produtos associados a atividades criminosas.
Nova apreensão ocorreu em Codajás
Em julho, outra ação chamou atenção pela quantidade de entorpecentes apreendidos.
Forças de segurança localizaram mais de 2,5 toneladas de cocaína nas proximidades do município de Codajás, no interior do Amazonas. Durante a ocorrência, também foi apreendido um fuzil acompanhado de munições.
Casos como esse reforçam a avaliação de investigadores de que as rotas fluviais continuam sendo utilizadas para transportar grandes carregamentos de drogas dentro do estado.
Mesmo quando uma carga é interceptada, especialistas alertam que o prejuízo não necessariamente representa o fim da operação criminosa.
A avaliação é que organizações estruturadas conseguem absorver parte das perdas como custo operacional, especialmente quando atuam em um mercado com elevada capacidade de geração de recursos.

CV e PCC disputam espaço na Amazônia
A dinâmica das organizações criminosas na região também mudou nos últimos anos.
Levantamentos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que, após o enfraquecimento da Família do Norte (FDN), o Comando Vermelho (CV) passou a exercer maior influência sobre áreas da chamada Rota do Solimões.
A expansão do grupo ocorre em um cenário de disputa com o Primeiro Comando da Capital (PCC) por rotas utilizadas para o tráfico de drogas.
Essa disputa ultrapassa os grandes centros urbanos e alcança regiões próximas à tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia.
Segundo análises sobre a região, a estratégia das organizações criminosas também pode envolver a aproximação ou cooptação de comunidades ribeirinhas, além da formação de alianças com grupos armados que atuam fora do território brasileiro.
O cenário torna o combate mais complexo porque o controle de determinadas rotas pode representar uma vantagem logística para a circulação de drogas e armas.
Crime organizado também avança sobre atividades ambientais
Outro aspecto que preocupa especialistas é a aproximação entre tráfico de drogas e crimes ambientais.
A exploração ilegal de recursos naturais pode gerar fontes adicionais de financiamento para organizações criminosas.
Entre as atividades apontadas estão garimpo ilegal, extração clandestina de madeira, grilagem de terras e comércio ilegal de ouro.
Esse modelo é classificado por especialistas como uma espécie de sistema híbrido, no qual diferentes atividades ilegais podem se conectar.
O dinheiro obtido com crimes ambientais pode ser utilizado para financiar outras operações criminosas, enquanto produtos e recursos provenientes dessas atividades podem funcionar como mecanismos de lavagem de dinheiro.
A atuação em áreas remotas também dificulta a fiscalização e permite que grupos criminosos aproveitem a distância dos centros administrativos e policiais.
Especialista aponta falta de efetivo como obstáculo
Para Joel Paviotti, a dimensão das rotas amazônicas representa uma dificuldade que não pode ser solucionada apenas com operações pontuais.
“Essas rotas são gigantescas e o efetivo das Forças Armadas e da Polícia Federal não dá conta de mapear, fiscalizar e conter a quantidade de drogas transportada pelos grupos criminosos.”
O especialista também chama atenção para outro fator que pode comprometer as estratégias de combate ao tráfico: a corrupção.
“A venda de cocaína gera lucros enormes, o que sustenta todo um sistema de corrupção que, inclusive, dificulta o trabalho do pouco efetivo policial que o Brasil dispõe para fiscalizar uma área gigantesca.”
A avaliação indica que o enfrentamento das organizações criminosas depende não apenas da apreensão de drogas, mas também da capacidade de investigar o fluxo financeiro, identificar integrantes, combater a corrupção e controlar os corredores utilizados pelos grupos.
Governo afirma que ações buscam ampliar presença do Estado
As Forças Armadas afirmaram que atuam de forma subsidiária e integrada no combate a crimes ambientais e na proteção das áreas de fronteira.
Segundo as informações divulgadas pelas autoridades, operações como a Ágata e ações de patrulhamento fluvial e aéreo buscam reforçar a presença do Estado em regiões próximas às fronteiras com Peru e Colômbia.
O Ministério da Justiça e Segurança Pública também informou que desenvolve ações na região por meio do programa Território Seguro, Amazônia Soberana, com atenção especial para áreas como o Alto Solimões e o Alto Rio Negro.
A estratégia busca combinar o enfrentamento ao crime organizado com ações destinadas a ampliar alternativas legais de desenvolvimento para as populações que vivem nessas regiões.

Desafio vai além das apreensões
Os resultados registrados entre 2024 e 2026 mostram uma atuação crescente das forças de segurança contra o crime organizado no Amazonas. Prisões, apreensões de drogas, armas, veículos e minério ilegal representam perdas importantes para grupos criminosos.
Por outro lado, a permanência das organizações em rotas fluviais e a expansão para atividades ambientais mostram que o problema possui características estruturais.
A dimensão territorial do estado, a dificuldade de acesso a determinadas regiões e a proximidade com países produtores de drogas tornam o Amazonas uma área estratégica para as organizações criminosas.
O cenário também demonstra que o combate ao crime na Amazônia depende de uma atuação permanente, integrada e capaz de acompanhar a capacidade de adaptação dos grupos.
Enquanto as forças públicas ampliam operações e investimentos, as facções buscam novas rotas e fontes de financiamento para manter suas atividades.
A disputa pelo controle dos rios, portanto, permanece como um dos principais desafios para a segurança pública na região amazônica.
Fonte: g1.globo.com