A criptografia do Discord passou a ser alvo de questionamentos da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) por dificultar o monitoramento de transmissões ao vivo e outras comunicações de áudio e vídeo na plataforma. A tecnologia foi ativada globalmente pela empresa pouco antes da entrada em vigor do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), em março de 2026, e, segundo a agência, reduziu a capacidade de identificar e interromper situações potencialmente perigosas envolvendo crianças e adolescentes.
A criptografia de ponta a ponta transforma o conteúdo das comunicações em informações codificadas, que podem ser acessadas apenas pelos participantes autorizados da conversa. De acordo com o Discord, o recurso foi criado para ampliar a privacidade dos usuários, impedindo que pessoas não convidadas, incluindo funcionários da própria empresa e sistemas automatizados, tenham acesso ao conteúdo de chamadas de voz, vídeo ou transmissões.
Para a ANPD, entretanto, a adoção dessa tecnologia nas chamadas e lives exige que a empresa encontre mecanismos alternativos capazes de garantir proteção equivalente ou superior aos usuários menores de idade.
A discussão ocorre em meio a uma investigação aberta pela agência para apurar se o Discord adotou medidas suficientes para proteger crianças e adolescentes que utilizam a plataforma.
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ANPD questiona segurança das transmissões ao vivo
A Superintendência de Fiscalização da ANPD avalia que a implementação da criptografia de ponta a ponta nas transmissões ao vivo pode ter reduzido os mecanismos de proteção disponíveis na plataforma.
Segundo a agência, a situação chama atenção porque a mudança no funcionamento das lives ocorreu depois da promulgação do ECA Digital e pouco antes da legislação entrar em vigor.
“Chama a atenção que o desenho de produto menos protetivo das funcionalidades de ‘lives’ tenha sido implementado justamente após a promulgação do ECA Digital e às vésperas da sua entrada em vigor”, aponta a Superintendência de Fiscalização.
A legislação estabelece que provedores de aplicações e sistemas operacionais adotem medidas consideradas auditáveis e tecnicamente seguras para proteger usuários menores de 18 anos. Entre as ferramentas previstas estão mecanismos relacionados à verificação de idade e à supervisão parental.
A ANPD entende que a criptografia não elimina a obrigação das plataformas de cumprir as exigências brasileiras de proteção de crianças e adolescentes.
A agência chegou a determinar preventivamente a suspensão das transmissões ao vivo e do compartilhamento de vídeos no Discord no Brasil. A medida está relacionada ao processo de fiscalização aberto para verificar se a empresa adotou medidas estruturais e procedimentais suficientes para proteger o público infantojuvenil.

Caso de adolescente motivou investigação
A fiscalização ganhou força após um episódio registrado em 22 de julho, quando uma adolescente de 13 anos, moradora de Naviraí (MS), morreu durante uma transmissão em tempo real realizada por canais do Discord.
Segundo a ANPD, o caso teria demonstrado os riscos associados à facilidade de acesso e utilização da plataforma por adolescentes a partir dos 13 anos.
A agência afirma que mais de 200 usuários acompanharam a transmissão realizada pela adolescente.
O episódio também passou a ser investigado pela Operação Lívia, deflagrada pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul em conjunto com o Ministério da Justiça e Segurança Pública.
A operação investiga uma suposta organização criminosa que teria atraído crianças e adolescentes para comunidades virtuais e submetido vítimas a situações de coerção psicológica. Conforme as investigações, os grupos seriam utilizados para estimular comportamentos violentos, automutilação e até o autoextermínio.
Na primeira fase da operação, cinco adolescentes, com idades entre 13 e 17 anos, foram apreendidos. Um homem de 18 anos também foi detido. As autoridades cumpriram ainda oito mandados de busca e apreensão em Mato Grosso do Sul, Ceará, Minas Gerais, Pará e Rio de Janeiro.
ANPD critica argumento baseado na privacidade
A discussão central entre a agência e o Discord está relacionada ao equilíbrio entre privacidade e proteção de usuários vulneráveis.
Desde março de 2026, as comunicações de áudio e vídeo da plataforma passaram a utilizar criptografia de ponta a ponta. O Discord argumenta que, por causa da tecnologia, a empresa não consegue acessar o conteúdo das conversas enquanto elas estão acontecendo e, consequentemente, não poderia interromper diretamente determinados episódios transmitidos pelos usuários.
A ANPD, porém, considera que essa justificativa não é suficiente para afastar as responsabilidades da empresa previstas na legislação brasileira.
“Não basta à empresa afirmar que a comunicação entre usuários é privada e, portanto, não possui acesso ao conteúdo”, sustenta a Superintendência de Fiscalização.
Para o órgão, caso determinada escolha tecnológica impeça a aplicação de uma ferramenta de proteção, a empresa precisa desenvolver mecanismos substitutivos.
“Se uma escolha de segurança inviabiliza a implementação de determinado controle, cabe [à companhia] implementar controles substitutivos e demonstrar a efetividade equivalente ou superior” do mecanismo de proteção adotado.
A posição da agência coloca em debate uma questão cada vez mais presente no ambiente digital: até que ponto empresas podem utilizar criptografia para garantir privacidade sem comprometer mecanismos de proteção contra crimes e violência envolvendo menores.

Denúncias contra Discord aumentaram em 2026
Dados da SaferNet Brasil, organização voltada à defesa dos direitos humanos na internet, também indicam aumento nas denúncias relacionadas ao Discord.
Entre janeiro e julho de 2026, foram registradas 406 denúncias envolvendo a plataforma, contra 264 no mesmo período de 2025. O crescimento corresponde a aproximadamente 54%.
A organização também informou que, entre janeiro de 2017 e julho de 2026, seu canal de denúncias recebeu e analisou 2.059 links relacionados ao Discord, envolvendo conteúdos, servidores, perfis ou mensagens que foram alvo de reclamações.
Os dados reforçam a preocupação da ANPD com o ambiente oferecido pela plataforma e com a exposição de crianças e adolescentes a grupos e conteúdos potencialmente perigosos.
A agência afirma que as funcionalidades protegidas pela criptografia de ponta a ponta, incluindo as transmissões ao vivo, foram utilizadas em diferentes situações envolvendo graves violações dos direitos de crianças e adolescentes.
Segundo a ANPD, grupos mal-intencionados estariam utilizando a plataforma como meio para a prática de crimes. A própria empresa reconheceu que o episódio envolvendo a adolescente de Naviraí ocorreu em comunicações privadas de voz e vídeo protegidas por criptografia de ponta a ponta.
Discord afirma trabalhar pela segurança dos usuários
Procurado sobre a implementação da criptografia e sua compatibilidade com as exigências do ECA Digital, o Discord não respondeu aos questionamentos até a publicação da reportagem.
Em manifestação anterior, contudo, a empresa afirmou que não tolera grupos ou indivíduos que promovam ou incentivem violência.
Segundo a companhia, equipes especializadas atuam para identificar grupos, remover conteúdos que violem as regras da plataforma e comunicar situações às autoridades policiais.
“Temos o compromisso com a segurança dos nossos usuários e contamos com equipes dedicadas a desarticular esses grupos, remover conteúdos que violem nossas políticas e tomar medidas contra os responsáveis por essas condutas”, informou a empresa.
O caso deverá continuar sendo acompanhado pela ANPD, que poderá avaliar as medidas adotadas pelo Discord e determinar novas providências caso considere que a plataforma não atende às exigências brasileiras de proteção de crianças e adolescentes.
A discussão também pode estabelecer novos parâmetros para outras plataformas que utilizam criptografia de ponta a ponta, especialmente em serviços que combinam comunicação privada, transmissão ao vivo e acesso de menores de idade.