
A discussão sobre a carga horária semanal ganhou força no Brasil após o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, afirmar em entrevista à Folha de S.Paulo que “o fim da escala 6x1 vai chegar” e que o país precisa se preparar para uma redução significativa das horas trabalhadas. Segundo o ministro, é plenamente possível que o país evolua para jornadas próximas de 40 horas semanais, em contraste com o modelo tradicional de 44 horas — ainda amplamente adotado por supermercados, shoppings, comércio e serviços essenciais.
A fala de Marinho reacendeu um debate que se tornou global: como conciliar produtividade, competitividade econômica e qualidade de vida? E, especialmente, como transformar um mercado de trabalho que ainda opera majoritariamente em regimes considerados exaustivos para a mente e o corpo?
A discussão sobre reduzir a jornada não é nova, mas ganhou força nos últimos anos devido a transformações sociais, tecnológicas e comportamentais. O avanço da digitalização, a adoção do teletrabalho durante a pandemia de COVID-19 e o surgimento de novas profissões contribuíram para pressionar o governo e o setor privado a revisitar conceitos trabalhistas históricos.
Além disso, movimentos internacionais como a semana de 4 dias, já testada no Reino Unido, Espanha, Portugal, Islândia e Nova Zelândia, demonstraram que é possível reduzir a carga horária mantendo — e até aumentando — a produtividade. Empresas que adotaram o modelo relatam:
menor absenteísmo;
aumento da retenção de talentos;
queda nos níveis de estresse;
maior satisfação dos trabalhadores;
redução de erros operacionais.
Marinho afirma que o Brasil não pode ficar para trás nessa discussão:
“As transformações do mundo do trabalho chegam para todos. E o debate sobre carga horária precisa acontecer de forma madura, assim como aconteceu com a tabela do Imposto de Renda. Não houve unanimidade, mas avançamos.”
A escala 6x1, em que o trabalhador atua por seis dias consecutivos e folga apenas um, foi historicamente adotada por setores que funcionam sem interrupção — como supermercados, farmácias, restaurantes, lojas de shopping e serviços essenciais. A lógica sempre foi atender à alta demanda e garantir funcionamento diário, principalmente aos finais de semana.
No entanto, para a maioria dos trabalhadores brasileiros, a jornada é considerada exaustiva, especialmente quando combinada a:
longos deslocamentos até o trabalho;
pressão por produtividade;
falta de incentivo ao descanso;
poucas férias fracionadas;
remunerações que variam entre R$ 1.500 e R$ 2.500 na maior parte do comércio.
Pesquisas sobre saúde laboral mostram que escalas extensas intensificam sintomas como ansiedade, exaustão física e mental, irritabilidade e dificuldade de manter convivência familiar saudável.
O ministro resume:
“A vida mudou. O trabalhador brasileiro mudou. E as empresas precisam estudar formas de modernizar essa jornada. A escala 6x1 não dialoga mais com as novas expectativas sociais.”

O descontentamento dos jovens com jornadas extensas é um dos fatores que impulsiona esse debate. A chamada Geração Z, composta por pessoas nascidas entre 2000 e 2006, tem rejeitado modelos tradicionais de trabalho, especialmente o 6x1, que impede finais de semana livres, dificulta estudos e compromete tempo de lazer.
Muitos deles defendem a chamada cultura VAT — Vida Além do Trabalho, um movimento que ganhou força global a partir de 2021 e que incentiva:
mais equilíbrio entre carreira e vida pessoal;
menos glorificação da “rotina exaustiva”;
rejeição à cultura do “trabalhar até cair”;
valorização da saúde mental;
busca por empregos com propósito e flexibilidade.
O movimento emergiu após a pandemia, quando milhões de jovens passaram a viver novas dinâmicas de trabalho e perceberam que produtividade não está diretamente ligada a horas presenciais.
Empresas que insistem em modelos rígidos têm enfrentado desafios para contratar, especialmente em setores como:
operador de caixa
repositor
estoquista
atendente de loja
vendedor
atendente de fast-food
Segundo análises internas do Portal Minuto News, muitas empresas relatam que jovens deixam o emprego ainda durante o período de experiência — ou poucos meses depois de serem contratados — justamente pelo desgaste da rotina.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica jornadas extensas como um dos principais fatores que contribuem para:
burnout;
ansiedade;
depressão;
problemas gastrointestinais;
distúrbios do sono;
enfraquecimento da vida social.
Em setores com forte pressão produtiva, como varejo e alimentação, o risco é ainda maior. Especialistas afirmam que regimes como 6x1 ou carga horária superior a 44 horas semanais prejudicam especialmente trabalhadores de baixa renda, que acumulam deslocamentos longos e duplas jornadas.
“O trabalhador brasileiro vive uma rotina intensa, em muitos casos sem descanso adequado. É urgente modernizar esse modelo”, afirma a psicóloga social fictícia Helena Duarte, consultada pela reportagem.
Luiz Marinho afirma que o debate sobre reduzir a jornada deve ocorrer de forma ampla, dialogando com trabalhadores, empresas, sindicatos e parlamentares.
Ele defende que a mudança pode ser gradual, acompanhada de estudos técnicos sobre impactos econômicos.
Segundo ele:
“Assim como a discussão da jornada não tem unanimidade, a tabela do Imposto de Renda também não tinha. Mas avançamos e tivemos vitória. O Brasil precisa continuar evoluindo.”
Pesquisadores do mundo inteiro têm observado que empresas que adotam jornadas menores não necessariamente reduzem seus resultados. Países como Islândia e Reino Unido reportaram:
aumento de 20% na produtividade média;
maior motivação dos funcionários;
queda no número de licenças médicas;
maior fidelização de talentos.
A lógica é simples: trabalhadores descansados produzem melhor.
Apesar da tendência global, especialistas apontam desafios específicos no país:
alto número de empregos formais no comércio e serviços;
cultura empresarial tradicional;
baixa automação;
informalidade elevada;
custos sobre folha de pagamento.
Por isso, o governo estuda alternativas que permitam avanços sem gerar impactos negativos no setor produtivo.
Embora ainda não exista um projeto formal no Congresso para extinguir definitivamente a escala 6x1, a fala do ministro Luiz Marinho aponta para uma mudança de era. O Brasil parece caminhar para um novo entendimento sobre:
qualidade de vida;
produtividade sustentável;
equilíbrio familiar;
valorização da saúde mental;
jornadas mais humanas e modernas.
A sociedade, especialmente os jovens, já demonstra que não aceita mais modelos exaustivos. E o governo indica que pretende acompanhar esse movimento global.