
O estado de São Paulo enfrenta uma grave crise no quadro de servidores da educação pública: 95 professores são afastados por dia devido a problemas de saúde mental. Os dados, que chamam atenção pela dimensão e constância, foram obtidos pelo Centro do Professorado Paulista (CPP) por meio da Lei de Acesso à Informação, com base nos registros da Diretoria de Perícias Médicas do Estado (DPME).
De janeiro a setembro deste ano, 25.699 licenças médicas foram concedidas a docentes da rede estadual por transtornos mentais e comportamentais – classificados segundo o CID-10. O número é alarmante e coloca em evidência a crescente deterioração emocional que tem atingido profissionais responsáveis pela formação de milhões de estudantes paulistas.
Além da quantidade expressiva de afastamentos, o levantamento mostra que a soma total dos dias longe das salas de aula chegou a 911.634 dias no período analisado. Na prática, significa que cada afastamento durou, em média, 35 dias, revelando quadros clínicos que ultrapassam episódios pontuais e se aproximam de processos mais prolongados de adoecimento.
Para o CPP, entidade que representa mais de 75 mil professores no estado, os números são apenas a face visível de uma crise mais profunda. A associação apontou que a rede estadual enfrenta há anos um “processo crescente de adoecimento emocional”, marcado por uma combinação de fatores que afetam diretamente a saúde mental dos educadores.
Entre os principais motivos relatados estão:
Sobrecarga de trabalho em salas lotadas;
Acúmulo de funções e metas administrativas;
Violência e indisciplina dentro das escolas;
Recursos pedagógicos insuficientes;
Pressão por resultados sem suporte institucional adequado;
Condições de infraestrutura precárias em parte das unidades.
Além disso, professores afirmam que as demandas burocráticas — como preenchimento de sistemas, relatórios e acompanhamento individualizado de estudantes — aumentaram significativamente nos últimos anos, ampliando o estresse diário.
Com a alta quantidade de licenças médicas, as escolas sofrem com falta de continuidade pedagógica e dificuldade para recompor equipes. Substituições emergenciais, aulas vagas e revezamentos improvisados tornam-se rotineiros, afetando diretamente o rendimento e a estabilidade da formação estudantil.
Diretores e coordenadores pedagógicos, por sua vez, lidam com o desafio constante de reorganizar horários e garantir que o currículo seja cumprido, mesmo com a ausência prolongada de docentes.
Profissionais da área de saúde mental e pesquisadores em educação afirmam que o cenário exige uma resposta urgente do poder público. Programas de prevenção ao adoecimento psíquico, fortalecimento do ambiente escolar, ampliação de equipes de apoio multiprofissional e redução da carga burocrática são medidas frequentemente mencionadas como caminhos possíveis.
O CPP defende que o governo estadual implemente políticas estruturadas de acolhimento psicológico e valorização profissional, incluindo melhores condições de trabalho e ambiente escolar mais seguro.
Enquanto isso, o número de afastamentos segue crescendo, apontando para um problema que não se limita ao bem-estar dos docentes, mas que reverbera em toda a rede educacional.