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Mesmo após ciclone, mais de 46 mil imóveis seguem sem energia em São Paulo

Mesmo com avanço no restabelecimento, mais de 46 mil imóveis ainda estavam sem luz na capital no fim da noite de domingo

Por: Marcos Renan
16/12/2025 às 10h40 Atualizada em 16/12/2025 às 18h59
Mesmo após ciclone, mais de 46 mil imóveis seguem sem energia em São Paulo
Foto: Bruno Escolastico/E.Fotografia/Estadão Conteúdo

A concessionária Enel Distribuição São Paulo informou, na noite deste domingo (14), que o fornecimento de energia elétrica na capital paulista e na região metropolitana começa a retornar ao padrão de normalidade após os severos impactos causados pela passagem de um ciclone extratropical que atingiu o estado na última quarta-feira (10). Apesar do avanço no restabelecimento do serviço, milhares de consumidores ainda enfrentavam interrupções no fornecimento até o fim da noite.

Segundo comunicado oficial divulgado pela empresa, o monitoramento realizado às 21h02 apontava que 46.129 imóveis ainda permaneciam sem energia elétrica apenas na cidade de São Paulo. O número representa uma redução significativa em relação ao pico do apagão, mas evidencia que parte da população seguia enfrentando transtornos quase cinco dias após o evento climático extremo.

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Entre os municípios mais afetados da região metropolitana, Cotia apareceu como o segundo mais atingido, com 12.496 clientes ainda sem fornecimento de energia no mesmo horário. Em seguida, Itapecerica da Serra registrava 3.547 imóveis sem luz, segundo dados da própria concessionária.

Ciclone extratropical causou colapso no sistema elétrico

Ciclone causa apagão na região e expõe fragilidade estrutural da rede elétrica
Imagem: Reprodução

O apagão foi provocado pela passagem de um ciclone extratropical que atingiu o estado de São Paulo com ventos que se aproximaram de 100 km/h, derrubando árvores, danificando redes elétricas e causando prejuízos estruturais em diversas regiões. No momento mais crítico, mais de 2 milhões de imóveis ficaram sem energia elétrica, configurando um dos maiores apagões já registrados no estado nos últimos anos.

Em alguns bairros da capital e cidades da Grande São Paulo, o fornecimento de energia demorou dias para ser restabelecido, gerando revolta entre moradores, comerciantes e autoridades. Em determinadas áreas, moradores relataram que o apagão persistia por mais de 96 horas, agravando prejuízos financeiros e comprometendo serviços essenciais.

Impactos além da falta de luz

Os efeitos do apagão se estenderam muito além da interrupção no fornecimento de energia elétrica. A falta de luz provocou desabastecimento de água em diversos bairros, já que o sistema de bombeamento depende de energia para funcionar. Em regiões mais altas da capital, moradores ficaram dias sem água nas torneiras.

O trânsito também foi severamente afetado. A falha no funcionamento de semáforos em importantes vias da cidade provocou engarrafamentos, lentidão extrema e aumento do risco de acidentes, exigindo a atuação emergencial da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e da Polícia Militar.

Além disso, o setor aéreo sofreu impactos expressivos. Mais de 300 voos foram cancelados ou atrasados nos aeroportos de Congonhas e Guarulhos, devido às condições climáticas adversas e à instabilidade nos sistemas operacionais.

A ventania intensa também derrubou dezenas de árvores, algumas delas sobre veículos, residências e fiações elétricas, agravando ainda mais os danos à rede de distribuição.

Trabalhos seguem em áreas mais complexas

Mais de 1,3 milhão de imóveis continuam sem energia elétrica em SP - Folha PE
Foto: Paulo Pinto/ Agência Brasil

No comunicado divulgado neste domingo, a Enel afirmou que suas equipes seguem atuando em ocorrências consideradas mais complexas, especialmente nos casos que exigem reconstrução da rede elétrica. Segundo a concessionária, essas situações envolvem a substituição de cabos rompidos, troca de postes danificados e reparos em equipamentos de grande porte.

A empresa destacou ainda que, além dos danos provocados diretamente pelo ciclone, as equipes também trabalham para atender novas ocorrências de falta de energia registradas após o evento climático, muitas delas causadas por quedas tardias de árvores ou falhas pontuais na rede.

De acordo com a Enel, milhares de profissionais foram mobilizados, incluindo técnicos próprios e equipes terceirizadas, atuando de forma contínua para acelerar o restabelecimento do serviço.

Pressão institucional e questionamentos sobre a concessão

A crise no fornecimento de energia reacendeu o debate sobre a qualidade dos serviços prestados pela Enel em São Paulo e levou a uma reação institucional. Na última sexta-feira (12), o Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (MPTCU) recomendou a suspensão de qualquer ato administrativo relacionado à renovação do contrato de concessão da empresa.

O pedido foi encaminhado à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e fundamentado em um parecer que aponta “falhas graves” na prestação do serviço de distribuição de energia elétrica no estado. Segundo o documento, tais falhas podem configurar violação de princípios constitucionais, especialmente aqueles relacionados à continuidade e eficiência dos serviços públicos essenciais.

O parecer foi assinado pelo subprocurador-geral do MPTCU, Lucas Rocha Furtado, que destacou que eventos climáticos extremos, embora intensos, não podem ser tratados como imprevisíveis, especialmente diante das mudanças climáticas e da recorrência de fenômenos dessa natureza.

Eventos climáticos e responsabilidade das concessionárias

Dados comprovam aumento de eventos climáticos extremos em São Paulo – Jornal da USP
Imagem: Cecília Bastos/USP Imagens

No entendimento do Ministério Público, concessionárias de energia devem manter planos de contingência robustos, capazes de responder de forma rápida e eficaz a eventos extremos. Para o órgão, a repetição de apagões de grande escala evidencia fragilidades estruturais na rede de distribuição e na capacidade de resposta da empresa.

Em declaração, Furtado afirmou que o objetivo da recomendação é provocar uma análise técnica aprofundada por parte do TCU, para avaliar se a Enel atende aos requisitos necessários para a renovação do contrato de concessão.

O pedido ainda será analisado pelo presidente do Tribunal de Contas da União, que poderá determinar a abertura de processos de fiscalização ou auditoria sobre a atuação da concessionária.

Reação da população e do poder público

A demora no restabelecimento do fornecimento gerou forte reação da população nas redes sociais e levou prefeitos e parlamentares a cobrarem explicações e providências. O prefeito de São Paulo chegou a classificar a situação como inaceitável e cobrou medidas mais rígidas por parte da Aneel.

Especialistas em infraestrutura urbana apontam que o episódio expõe a vulnerabilidade do sistema elétrico diante de eventos climáticos cada vez mais intensos e reforça a necessidade de investimentos em enterramento de fiação, poda preventiva de árvores e modernização da rede.

Situação segue em monitoramento

Apesar do avanço no restabelecimento do serviço, a Enel informou que segue monitorando a situação em tempo real e orientou os clientes que ainda enfrentam falta de energia a registrarem ocorrências pelos canais oficiais da concessionária.

A expectativa da empresa é concluir o atendimento dos casos remanescentes nos próximos dias, à medida que os trabalhos de reconstrução da rede avancem.

Enquanto isso, moradores e comerciantes aguardam a normalização total do fornecimento e cobram medidas concretas para evitar que episódios semelhantes se repitam no futuro.

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