
A concessionária Enel Distribuição São Paulo informou, na noite deste domingo (14), que o fornecimento de energia elétrica na capital paulista e na região metropolitana começa a retornar ao padrão de normalidade após os severos impactos causados pela passagem de um ciclone extratropical que atingiu o estado na última quarta-feira (10). Apesar do avanço no restabelecimento do serviço, milhares de consumidores ainda enfrentavam interrupções no fornecimento até o fim da noite.
Segundo comunicado oficial divulgado pela empresa, o monitoramento realizado às 21h02 apontava que 46.129 imóveis ainda permaneciam sem energia elétrica apenas na cidade de São Paulo. O número representa uma redução significativa em relação ao pico do apagão, mas evidencia que parte da população seguia enfrentando transtornos quase cinco dias após o evento climático extremo.
Entre os municípios mais afetados da região metropolitana, Cotia apareceu como o segundo mais atingido, com 12.496 clientes ainda sem fornecimento de energia no mesmo horário. Em seguida, Itapecerica da Serra registrava 3.547 imóveis sem luz, segundo dados da própria concessionária.
O apagão foi provocado pela passagem de um ciclone extratropical que atingiu o estado de São Paulo com ventos que se aproximaram de 100 km/h, derrubando árvores, danificando redes elétricas e causando prejuízos estruturais em diversas regiões. No momento mais crítico, mais de 2 milhões de imóveis ficaram sem energia elétrica, configurando um dos maiores apagões já registrados no estado nos últimos anos.
Em alguns bairros da capital e cidades da Grande São Paulo, o fornecimento de energia demorou dias para ser restabelecido, gerando revolta entre moradores, comerciantes e autoridades. Em determinadas áreas, moradores relataram que o apagão persistia por mais de 96 horas, agravando prejuízos financeiros e comprometendo serviços essenciais.
Os efeitos do apagão se estenderam muito além da interrupção no fornecimento de energia elétrica. A falta de luz provocou desabastecimento de água em diversos bairros, já que o sistema de bombeamento depende de energia para funcionar. Em regiões mais altas da capital, moradores ficaram dias sem água nas torneiras.
O trânsito também foi severamente afetado. A falha no funcionamento de semáforos em importantes vias da cidade provocou engarrafamentos, lentidão extrema e aumento do risco de acidentes, exigindo a atuação emergencial da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e da Polícia Militar.
Além disso, o setor aéreo sofreu impactos expressivos. Mais de 300 voos foram cancelados ou atrasados nos aeroportos de Congonhas e Guarulhos, devido às condições climáticas adversas e à instabilidade nos sistemas operacionais.
A ventania intensa também derrubou dezenas de árvores, algumas delas sobre veículos, residências e fiações elétricas, agravando ainda mais os danos à rede de distribuição.
No comunicado divulgado neste domingo, a Enel afirmou que suas equipes seguem atuando em ocorrências consideradas mais complexas, especialmente nos casos que exigem reconstrução da rede elétrica. Segundo a concessionária, essas situações envolvem a substituição de cabos rompidos, troca de postes danificados e reparos em equipamentos de grande porte.
A empresa destacou ainda que, além dos danos provocados diretamente pelo ciclone, as equipes também trabalham para atender novas ocorrências de falta de energia registradas após o evento climático, muitas delas causadas por quedas tardias de árvores ou falhas pontuais na rede.
De acordo com a Enel, milhares de profissionais foram mobilizados, incluindo técnicos próprios e equipes terceirizadas, atuando de forma contínua para acelerar o restabelecimento do serviço.
A crise no fornecimento de energia reacendeu o debate sobre a qualidade dos serviços prestados pela Enel em São Paulo e levou a uma reação institucional. Na última sexta-feira (12), o Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (MPTCU) recomendou a suspensão de qualquer ato administrativo relacionado à renovação do contrato de concessão da empresa.
O pedido foi encaminhado à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e fundamentado em um parecer que aponta “falhas graves” na prestação do serviço de distribuição de energia elétrica no estado. Segundo o documento, tais falhas podem configurar violação de princípios constitucionais, especialmente aqueles relacionados à continuidade e eficiência dos serviços públicos essenciais.
O parecer foi assinado pelo subprocurador-geral do MPTCU, Lucas Rocha Furtado, que destacou que eventos climáticos extremos, embora intensos, não podem ser tratados como imprevisíveis, especialmente diante das mudanças climáticas e da recorrência de fenômenos dessa natureza.
No entendimento do Ministério Público, concessionárias de energia devem manter planos de contingência robustos, capazes de responder de forma rápida e eficaz a eventos extremos. Para o órgão, a repetição de apagões de grande escala evidencia fragilidades estruturais na rede de distribuição e na capacidade de resposta da empresa.
Em declaração, Furtado afirmou que o objetivo da recomendação é provocar uma análise técnica aprofundada por parte do TCU, para avaliar se a Enel atende aos requisitos necessários para a renovação do contrato de concessão.
O pedido ainda será analisado pelo presidente do Tribunal de Contas da União, que poderá determinar a abertura de processos de fiscalização ou auditoria sobre a atuação da concessionária.
A demora no restabelecimento do fornecimento gerou forte reação da população nas redes sociais e levou prefeitos e parlamentares a cobrarem explicações e providências. O prefeito de São Paulo chegou a classificar a situação como inaceitável e cobrou medidas mais rígidas por parte da Aneel.
Especialistas em infraestrutura urbana apontam que o episódio expõe a vulnerabilidade do sistema elétrico diante de eventos climáticos cada vez mais intensos e reforça a necessidade de investimentos em enterramento de fiação, poda preventiva de árvores e modernização da rede.
Apesar do avanço no restabelecimento do serviço, a Enel informou que segue monitorando a situação em tempo real e orientou os clientes que ainda enfrentam falta de energia a registrarem ocorrências pelos canais oficiais da concessionária.
A expectativa da empresa é concluir o atendimento dos casos remanescentes nos próximos dias, à medida que os trabalhos de reconstrução da rede avancem.
Enquanto isso, moradores e comerciantes aguardam a normalização total do fornecimento e cobram medidas concretas para evitar que episódios semelhantes se repitam no futuro.