
O tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, acusado de matar a esposa, a soldado Gisele Alves, começou a ser julgado em um processo administrativo interno que pode levar à expulsão definitiva da corporação paulista.
Preso preventivamente desde março, o oficial responde a um Conselho de Justificação (CJ), procedimento utilizado pela Polícia Militar para avaliar se um oficial possui condições morais, éticas e funcionais para continuar integrando a instituição.
A fase de instrução do processo teve início em abril com a oitiva de testemunhas. Novos depoimentos estão previstos para os dias 11 e 14 de maio, conforme publicação no Diário Oficial do Estado de São Paulo.
As audiências ocorrerão por videoconferência e devem reunir quatro testemunhas ligadas ao caso, entre elas policiais militares que atuaram na ocorrência e amigas próximas da vítima.
Segundo o edital publicado, serão ouvidos:
Um policial militar que participou do atendimento da ocorrência no dia da morte;
Uma soldado da PM;
Um primeiro-tenente;
Uma subtenente;
Uma cabo da corporação.
A defesa do tenente-coronel, representada pelo advogado Eugênio Malavasi, foi intimada para acompanhar os depoimentos.
Até o momento, não há confirmação sobre a data em que o próprio oficial será interrogado no processo administrativo.
Geraldo Neto é réu na Justiça comum pelos crimes de feminicídio e fraude processual. O Ministério Público sustenta que ele matou a esposa com um tiro na cabeça dentro do apartamento do casal, no bairro do Brás, região central da capital paulista, em fevereiro deste ano.
A acusação afirma que o oficial tentou simular um suicídio após o crime.
A soldado Gisele Alves tinha 32 anos e deixou uma filha de 7 anos, fruto de um relacionamento anterior.
A defesa do tenente-coronel nega qualquer envolvimento no assassinato e mantém a versão de que Gisele teria tirado a própria vida.
Segundo os advogados, a policial estaria emocionalmente abalada após o oficial pedir o divórcio.
No entanto, laudos periciais e investigações conduzidas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público apontam indícios de que a cena do crime teria sido alterada.
Os investigadores afirmam ainda que o oficial teria segurado a cabeça da vítima antes do disparo.
Durante a investigação, testemunhas relataram um suposto histórico de controle psicológico e violência doméstica.
Amigas da soldado disseram à polícia que Gisele pretendia se separar do marido após descobrir uma traição.
As policiais também afirmaram que o oficial controlava as redes sociais da esposa, limitava comportamentos e monitorava sua rotina.
Mensagens encontradas no celular do tenente-coronel também passaram a integrar o inquérito. Segundo o Ministério Público, o conteúdo revela um padrão de comportamento possessivo e controlador.
Em alguns trechos, o oficial se autodenominava “macho alfa” e dizia que a esposa deveria agir como uma “fêmea beta”.
O Conselho de Justificação é um procedimento administrativo exclusivo para oficiais da Polícia Militar.
O colegiado responsável pelo julgamento é composto por três coronéis da corporação, que analisam documentos, ouvem testemunhas e avaliam a conduta do militar.
Mesmo sem condenação criminal definitiva, um oficial pode perder o posto e a patente caso o Tribunal de Justiça Militar entenda que houve quebra de decoro incompatível com a função.
Segundo especialistas em Direito Militar, o foco do Conselho não é apenas o crime em si, mas também a conduta funcional do oficial durante a investigação.
Geraldo Neto está detido preventivamente no Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte da capital paulista.
De acordo com informações da Polícia Militar, ele permanece em regime fechado, dividido em cela com outros policiais militares e com direito a banho de sol diário.
Mesmo aposentado da corporação desde abril, o oficial continua recebendo salário. Dados do Portal da Transparência apontam remuneração bruta de cerca de R$ 28,9 mil registrada antes da prisão.
Caso seja expulso da Polícia Militar ao final do Conselho de Justificação, ele poderá perder o benefício salarial e a patente militar.