
Algumas pessoas dizem que o ganhador das eleições não importa, porque todos os políticos são iguais. Essa afirmação encontra pouco amparo se comparados aspectos em diferentes governos, como a presença militar na política. O governo de Jair Bolsonaro (2018-2022) foi o que mais manteve militares no comando de ministérios desde a Ditadura Militar (1964-1985) e superou o número de ocupantes em cargos civis, com 6.157. Em 2016, ano em que Dilma Rousseff sofreu impeachment, foram 2.957.
Outros afirmam que o voto deles não faz diferença para o país. O último levantamento do Instituto Atlasintel, divulgado em abril, revelou que Flávio Bolsonaro teria 47,8% das intenções de voto contra 47,5% de Lula. Essa pesquisa também mostrou um mau-estar geral da população, com todas as principais lideranças políticas tendo uma avaliação negativa.
Um ponto demonstra que os perfis de eleitores citados não estão de todo equivocados: o presidente da câmara Hugo Motta (REP) amarga 87% de imagem negativa, enquanto o presidente do senado Davi Alcolumbre (UNIÃO) tem 81%. Ainda assim, Motta sucedeu Arthur Lira (PP) e Alcolumbre sucedeu Rodrigo Pacheco (PSB), ambos bastante rejeitados pela população. Então, talvez o presidente da república eleito não importe tanto, porque os encarregados de andar as pautas do Executivo no Congresso continuam em seus cargos, apesar da desaprovação.
Desde a Constituição de 1988, o Brasil convive com um grupo expressivo de parlamentares que se denominam de centro. Esses políticos tendem a apoiar governos por conveniência e a priorizar interesses pessoais e o enriquecimento próprio. O centrão, porém, passou a concentrar cada vez mais poder político e econômico com a promulgação da emenda constitucional n° 86 pelas mãos de Eduardo Cunha (REP) em 2015.
A partir dali, o controle sobre o orçamento começou a mudar para as mãos do Legislativo com a instituição das emendas individuais impositivas, quando o Governo é obrigado a destinar um valor para os congressistas. A influência delas seguiu tímida até 2020, ano em que estourou a pandemia de covid-19 e o então presidente Bolsonaro enfrentava índices de impopularidade na casa dos 60%. A baixa transparência das emendas garantiu o apelido de “orçamento secreto”, declarado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal em dezembro de 2022.
Insatisfeito, o Congresso não abriu mão do dinheiro e aprovou emendas que fortaleceram e ampliaram a destinação de recursos aos parlamentares. Por isso, o montante reservado bateu recordes desde 2023. No ano passado, o terceiro mandato de Lula pagou R$ 31,5 bilhões, o maior valor da história. A ideia era dar mais independência na execução do orçamento. Na prática, o poder do Executivo foi esvaziado e passou a ser quase desnecessário para o Legislativo. Apesar da taxa de aprovação de medidas provisórias estar em declínio gradual desde a reinstituição das eleições diretas, o governo Lula III alcançou a menor taxa. O Congresso tem 120 dias para tornar lei, mas 77% perdeu a validade.
Quando um expoente do centrão, Michel Temer, ascendeu à Presidência da República após o impeachment, chegou a 82% de desaprovação no Datafolha em 2018. Mas ele permaneceu até a próxima eleição com medidas que o povo via com maus olhos. Numa entrevista à CNN, Temer já defendeu mudar o regime do país para semipresidencialista em 2030. Então, considerar o enfraquecimento do modelo atual uma consequência das relações políticas seria quase chamar de acidente, uma ingenuidade.
Diante da passividade das instituições públicas e do eleitor, uma mudança ganhou forma sem estar escrita. Políticos do centrão, muitos eleitos sem 1% da quantidade de votos que o Presidente da República recebeu, passaram a comandar um projeto que transforma o rumo do país num de interesses pessoais. Pois, é justo um deputado federal ter mais poder que um presidente? Como lidar com políticos que não se importam com a desaprovação, porque eles mantêm o controle do dinheiro e do poder de qualquer maneira?
Uma pista pode estar na vontade popular. Em 2025, quando a Câmara dos Deputados quis aprovar proposta que submeteria as investigações da Polícia Federal à votação de políticos, o povo foi às ruas e a Casa recuou. Mas protestos não adiantam se o voto ainda é dado na urna eletrônica. Talvez, a chave para o brasileiro revitalizar o presidencialismo seja justamente a polarização política. Votar em pessoas ideologicamente comprometidas e mais irredutíveis em princípios, seja de esquerda ou direita. Acabar com o centro antes que ele esvazie a República.
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