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Por que o trabalhador vive uma relação tóxica com o mercado

Índices econômicos positivos ajudam a observar as incertezas enfrentadas pelos desempregados.

Por: Jônathas Grunheidt
08/06/2026 às 13h10 Atualizada em 08/06/2026 às 18h09
Por que o trabalhador vive uma relação tóxica com o mercado

Falar dos malefícios do desemprego nos tempos atuais pode até ser considerado tabu, algo proibido ou evitado, especialmente pelo governo. Todo incumbente deseja evidenciar taxas econômicas positivas, o que, de fato, Lula III tem entregado com consistência. Em dezembro de 2025, a taxa de desemprego no Brasil caiu a 5,1%; segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foi o menor registro da série histórica. Uma quantia de 2,4% é classificada desalentada, gostariam de trabalhar, mas desistiram de procurar emprego. Mais de 1 milhão de pessoas procuram emprego há dois anos ou mais. Então, qual o perfil delas e quem soluciona os seus problemas?

Levantamento do ano passado feito pela Fundação Getúlio Vargas, com base nos dados do IBGE, revelou que os jovens de 18 a 29 anos tinham mais do que o dobro do desemprego de outras faixas etárias. O mercado os culpa por não terem experiência, qualificação necessária e falta de inteligência emocional. 

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Numa economia aquecida não há muitas aberturas de vagas, restam poucas que exijam a formação pela qual o jovem acabou de conseguir o diploma. Aparecem posições que misturam funções de três empregos num só e o jovem é responsabilizado pela ausência de ofertas compatíveis, por não ter algum requisito do que sobra e não querer se submeter à papéis que pagam menos pelo profissional que ele é. 

É conveniente que um mercado jogue todo o peso nas costas dos jovens, pois assim não precisa olhar para as próprias problemáticas e disfunções. Durante a pandemia da covid-19, entre 2020 e 2021, o país atingiu recordes de desemprego. Isso significa que, no meio de uma crise de saúde pública, as empresas não perdoaram os funcionários por evitarem contágio do vírus nem estavam dispostas a pensar num trabalho de casa improvisado. Nesse período, transtornos como depressão e ansiedade aumentaram pela falta de renda e isolamento social.

De acordo com o Ministério da Fazenda, mais de R$ 500 bilhões já foram concedidos em benefícios fiscais para as empresas. Diante disso, o mercado pede que o trabalhador ajuste a si mesmo ao invés de ofertar mais e diminuir a precarização das vagas. O jornalismo pode ser um dos exemplos, porque pedem que o profissional seja, simultaneamente, motorista e produtor de vídeo. Em 17 de abril, o cinegrafista Rodrigo Lapa dirigia um carro quando morreu em batida de caminhão. A repórter Alice Ribeiro teve morte encefálica.

Se parte do povo deseja um emprego e não consegue, significa que vasculharam a cidade em busca de oportunidades, mandaram toneladas de currículos online e não foram respondidos. Talvez, também estudem e as empresas não estejam dispostas a flexibilizar horário nem a ofertar vagas que englobam somente o turno da manhã, da tarde ou da noite. O artigo 303 da CLT estabelece a carga horária de um jornalista em 5 horas. Então, na verdade, os que estudam poderiam trabalhar. Qual jornal respeita isso se muitos querem, inclusive, plantões aos fins de semana? Tão poucos que são difíceis de encontrar.

Acima de tudo, o emprego em alta pode ser o cenário ideal para que, mesmo com bons índices, o cidadão perceba que o desemprego não existe para ser combatido, mas para ser tolerado. Na crise, em maior medida. Na bonança, em menor. A justificativa do mercado sobre os jovens nada mais é do evocar uma meritocracia necessária ao modo de viver capitalista. Como disse Deleuze uma vez, “o capitalismo tem grande necessidade de uma reserva de desemprego e abandona a máscara liberal do pleno emprego”. Então, as pessoas não conseguiram, porque não se esforçaram o suficiente.

Essa é mais uma história no Brasil em que se identificam estruturas ruins e ninguém está realmente inclinado à consertá-las. Se diz que “é a vida” e “que tudo vai dar certo”, porque depois das tentativas, a pessoa quer se consolar na sorte ou em Deus. Já o mercado segue feliz após inverter a culpa pelo paradoxo que criou, em que o cidadão fica preso num limbo por ser qualificado demais e de menos na mesma medida. É quase uma relação abusiva, em que ele é um narcisista e o trabalhador é um dependente emocional e financeiro. Ao ouvir a frase “Se eu me moldar, ela vai me aceitar”, está cada dia mais impossível distinguir entre um interesse amoroso ou uma empresa.

A opinião aqui demonstrada é inteiramente pessoal e não reflete o posicionamento do veículo Minuto News.

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Jônathas Grunheidt
Jônathas Grunheidt
Jornalista pela UFSM/FW. Mestrado em Antropologia Social na UFRGS.
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