
Um levantamento realizado pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) aponta que o tabagismo pode estar associado a pelo menos 63.268 mortes por câncer registradas no Brasil em 2025. O estudo reforça o impacto persistente do consumo de derivados do tabaco sobre a saúde pública brasileira e acende um alerta para o avanço dos cigarros eletrônicos, especialmente entre os jovens.
A estimativa considera 12 tipos de câncer relacionados ao tabagismo e foi elaborada com base em dados da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, projeções do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para 2026 e estudos epidemiológicos do próprio INCA e do Observatório da Saúde.
Segundo a SBCO, os tipos de câncer avaliados somaram 132.802 mortes em 2025. Após a aplicação dos percentuais de associação entre o cigarro e cada doença, os especialistas concluíram que mais de 63 mil desses óbitos podem ter ligação direta com o consumo de tabaco.
Entre os tumores mais associados ao cigarro está o câncer de pulmão, considerado um dos mais agressivos e letais. De acordo com o levantamento, aproximadamente 90% dos casos da doença estão relacionados ao tabagismo. Das 31.637 mortes registradas por câncer de pulmão em 2025, cerca de 28.473 podem ter sido provocadas diretamente pelo consumo de cigarros.
Os cânceres de laringe e esôfago também apresentam índices extremamente elevados de associação ao tabaco. No caso da laringe, a relação chega a 96%, enquanto o câncer de esôfago apresenta taxa de 90%.
Além desses, a pesquisa também identificou forte impacto do tabagismo em tumores de cavidade oral, bexiga, pâncreas, fígado, estômago, colo do útero, rim, colorretal e leucemia mieloide aguda.
Mesmo em tipos de câncer com percentual menor de associação, os especialistas destacam que o número absoluto de casos torna o impacto do tabagismo significativo. Isso ocorre principalmente em doenças como câncer colorretal, estômago, fígado e pâncreas, nas quais o cigarro atua em conjunto com outros fatores de risco, como sedentarismo, consumo de álcool e alimentação rica em ultraprocessados.
O presidente da SBCO, o cirurgião oncológico Paulo Henrique de Sousa Fernandes, afirma que o tabagismo continua sendo um dos principais fatores evitáveis ligados ao câncer. Segundo ele, os efeitos nocivos do cigarro se tornam ainda mais perigosos quando associados a hábitos pouco saudáveis.
“Mesmo quando não é a causa principal, o cigarro contribui de forma significativa para o desenvolvimento e agravamento da doença, especialmente quando associado ao consumo de álcool, sedentarismo e alimentação inadequada”, destacou o especialista.
Apesar da queda no número de fumantes no Brasil nas últimas décadas, os impactos do tabagismo ainda seguem refletindo diretamente nos indicadores de mortalidade. Um estudo publicado em 2025 na Revista Brasileira de Cancerologia mostrou que a taxa de fumantes caiu de 34,8% em 1989 para cerca de 9,3% em 2023.
Ainda assim, especialistas alertam que os efeitos do cigarro podem levar décadas para aparecer, principalmente em doenças oncológicas. Isso ocorre porque muitos tumores relacionados ao tabagismo possuem desenvolvimento lento e silencioso.
Outro ponto de preocupação crescente entre médicos e autoridades sanitárias é o avanço dos cigarros eletrônicos. Embora muitas pessoas enxerguem os dispositivos como alternativas menos nocivas, estudos já indicam que alguns aparelhos podem conter níveis de nicotina superiores aos do cigarro convencional.
Em abril de 2025, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) decidiu manter a proibição da comercialização de cigarros eletrônicos no Brasil, medida em vigor desde 2009.
Para a SBCO, os dispositivos eletrônicos representam uma porta de entrada para a dependência química, especialmente entre adolescentes e jovens adultos. Os especialistas alertam que há uma falsa sensação de segurança em torno desses produtos.
“Esses dispositivos liberam substâncias tóxicas que podem causar danos ao sistema respiratório e cardiovascular. Eles não são inofensivos e podem expor o usuário a níveis elevados de nicotina”, afirmou Paulo Henrique Fernandes.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reforça que abandonar o cigarro traz benefícios em qualquer fase da vida. Segundo a entidade, apenas 20 minutos após parar de fumar já ocorre redução da pressão arterial e da frequência cardíaca. Após 10 anos sem fumar, o risco de morte por câncer de pulmão cai para cerca da metade em comparação aos fumantes ativos.
Os especialistas ressaltam que campanhas de conscientização continuam sendo fundamentais para reduzir o número de novos fumantes e evitar que o tabagismo siga provocando milhares de mortes todos os anos no país.