No dia 8 de maio, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) pegou o Brasil de surpresa ao suspender a fabricação, distribuição e uso de detergentes lava-louças, lava-roupas líquidos e desinfetantes Ypê. A medida serviu somente para produtos do lote que termina em 1. Nas semanas seguintes, a empresa derrubou a suspensão na Justiça, mas a Anvisa manteve a recomendação de não uso.
Os argumentos contra a Ypê
O que era uma determinação de um órgão técnico rapidamente foi politizado nas redes sociais, em decorrência de uma doação de 1,5 milhão da Ypê para a campanha eleitoral de Jair Bolsonaro em 2022. Entretanto, múltiplas empresas doaram na época e não sofreram sanções da Anvisa. O argumento de perseguição política se apequena mais ainda ao considerar que a fiscalização foi feita pelo Centro de Vigilância Sanitária do Estado de São Paulo e a Vigilância Sanitária de Amparo.
Foi confirmado que a Unilever, dona da marca OMO e concorrente da Ypê, fez denúncias contra os produtos à Anvisa em outubro de 2025 e março deste ano. A própria Ypê manteve a suspensão da fábrica para se adequar às medidas sanitárias. A Unilever afirmou que testar a concorrência é prática comum no setor, ou seja, não se trata de decisão política, apenas de concorrência de mercado e fiscalização eficiente. Reduzir os procedimentos burocráticos e o trabalho de funcionários à retaliação eleitoral é desrespeitar essas pessoas e as instituições que integram.
O desafio da desinformação
Na história do jornalismo, o caso Ypê se torna mais um episódio de desinformação e atentado à saúde pública. Pois, como lutarão os fatos contra o desejo de acreditar? Não existe luta. Difícil é convencer os fatos de que eles não existem, fácil é convencer as pessoas que se opõem à eles.
Muitos dos críticos à Anvisa defenderam o tratamento precoce com hidroxicloroquina contra a Covid-19. Então, esperar deles algo além da notícia falsa pode ser uma expectativa equivocada. Talvez, o que a Anvisa persiga seja o neurônio da população. Infelizmente, alguns seres humanos são tão rápidos que conseguem fugir dele.
Opção não significa escolha
Por outro lado, a discussão em torno de um detergente pode revelar mais sobre a economia brasileira do que se imagina. Embora mais de 90% da energia produzida no Brasil seja renovável, o país demonstra laços fortes com fontes não renováveis. A Petrobras é um exemplo evidente disso. Num mundo ameaçado pelas mudanças climáticas, o consumo de petróleo deveria ser evitado e não incentivado. Mas o que isso tem a ver com a Ypê? O fato dela e outras marcas de preço e fama similares terem derivados de petróleo na composição dos produtos.
Ao invés do assunto ser a possível substituição desses produtos por alternativas mais ecológicas, a pauta não só não foi cogitada como se transformou numa defesa de marca em favor de preferência política. Em tempos incertos, os políticos parecem cada vez mais preocupados em distanciar o povo dos fatos de utilidade pública.
Existem detergentes mais ecológicos, com selo “livre de crueldade animal”, feitos de plásticos reciclados e sem derivados de petróleo na composição. O problema é que um Ypê de R$ de 2,90 passaria a ser um detergente de R$ 24,90. É sabido que 49,9% da população ganha até R$ 3,4 mil e vive nas classes D e E, segundo estudo da Tendências Consultoria. Portanto, pedir que metade dos consumidores adote hábitos mais sustentáveis seria ignorar os problemas econômicos das pessoas, quase uma visão elitista.
Pode ser conveniente aos políticos que uma pauta econômica se converta em disputa política. Afinal, se tudo se resumir numa batalha entre vermelhos e verdes, terá o eleitor tempo de refletir sobre suas dívidas ou contas apertadas mais do que tem interesse na punição dos adversários? As apostas vem corroendo o orçamento das famílias. O eleitor que perdeu a casa nas enchentes poderá pensar sobre a falta de prevenção? Não, chamará de tragédia. Ele não irá reparar nos votos à favor do afrouxamento de políticas ambientais dados pelos políticos que elegeu e contribuíram para perder o imóvel.
A percepção política pode desviar o foco do sistema econômico, que enterra a consciência ambiental e a transforma numa ideia utópica. É preciso ter cuidado para que a polarização não seja conduzida por cegueiras propositais e que os princípios ideológicos não sejam moldados por líderes camaleões.
A opinião aqui demonstrada é inteiramente pessoal e não reflete o posicionamento do veículo Minuto News.
