Um dos principais nomes do telejornalismo brasileiro tem formação em Publicidade e Propaganda; discussão sobre exigência de diploma voltou ao Supremo Tribunal Federal
A possível retomada da exigência de diploma específico para o exercício do jornalismo pelo Supremo Tribunal Federal (STF) reacendeu uma discussão que envolve não apenas estudantes e profissionais da área, mas também nomes consagrados da imprensa brasileira.
Um dos exemplos mais conhecidos é William Bonner, que construiu uma carreira de décadas no telejornalismo, mas não possui graduação específica em Jornalismo. Bonner é formado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). A própria USP relembrou, em 2026, que Bonner era estudante de Publicidade e Propaganda quando iniciou sua trajetória na televisão.
A trajetória do apresentador evidencia uma realidade que marcou parte da imprensa brasileira: profissionais com diferentes formações chegaram ao jornalismo e construíram carreiras reconhecidas antes e depois da mudança no entendimento jurídico sobre a profissão.
STF derrubou obrigatoriedade em 2009
Em 2009, o STF decidiu, por 8 votos a 1, que não poderia ser exigido diploma de Jornalismo como condição para o exercício da profissão. Desde então, profissionais sem graduação específica passaram a poder atuar legalmente na área.
Agora, o assunto voltou a ser discutido dentro da Corte. Em sessão realizada nesta semana, os ministros Flávio Dino e Alexandre de Moraes defenderam a possibilidade de reavaliar a questão. Moraes chegou a mencionar a necessidade de uma eventual regra de transição para profissionais que já atuam no jornalismo.
A discussão, porém, não significa que o diploma tenha voltado a ser obrigatório. Até o momento, não houve uma nova decisão do STF restabelecendo essa exigência.
O que aconteceria com quem já atua sem diploma?
Esse é um dos principais pontos da discussão.
Caso o Supremo eventualmente restabeleça a exigência de formação específica, será necessário definir como a nova regra afetaria profissionais que ingressaram no mercado quando o diploma não era uma exigência legal.
Uma possibilidade discutida pelos próprios ministros é a criação de uma regra de transição, preservando profissionais que já possuem experiência e trajetória consolidada na área.
Na prática, isso poderia impedir que jornalistas que já trabalham há anos fossem simplesmente retirados da profissão de um dia para o outro.
O caso de William Bonner ajuda a ilustrar a dimensão desse debate. Sua formação universitária é em Publicidade e Propaganda, mas sua trajetória profissional inclui décadas de atuação em televisão e no jornalismo.
Diploma garante um jornalismo melhor?
A discussão também envolve uma questão maior: a formação acadêmica deve ser obrigatória para definir quem pode ser considerado jornalista?
Defensores do diploma afirmam que a formação universitária contribui para preparar profissionais em áreas como ética, apuração, legislação, técnicas jornalísticas e responsabilidade social. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) defende a retomada de critérios profissionais para o exercício da atividade.
Por outro lado, entidades do setor manifestaram preocupação com a forma e o momento em que a discussão voltou à pauta. A Associação Nacional de Jornais (ANJ), por exemplo, questionou a reabertura do debate, enquanto outras entidades defenderam que a discussão seja conduzida separadamente de outras questões envolvendo liberdade de imprensa e sigilo da fonte.
O debate, portanto, não deveria ser reduzido à ideia de que quem possui diploma necessariamente produz bom jornalismo e quem não possui não está preparado. A formação é importante, mas experiência, ética, capacidade de apuração e compromisso com a informação também são elementos fundamentais para o exercício profissional.
O caso Bonner mostra a complexidade da discussão
Se o STF realmente voltar a exigir diploma, o Brasil terá de enfrentar uma questão importante: o que fazer com profissionais que construíram suas carreiras de forma legítima sob as regras existentes?
William Bonner é um exemplo emblemático dessa situação. Sua trajetória demonstra que a história do telejornalismo brasileiro também foi construída por profissionais cuja formação acadêmica não corresponde exatamente ao curso de Jornalismo.
Por isso, uma eventual mudança precisará considerar não apenas os novos profissionais que pretendem entrar no mercado, mas também aqueles que já possuem anos de experiência, registro profissional e atuação consolidada.
Enquanto não houver uma nova decisão do Supremo, permanece válido o entendimento estabelecido em 2009 de que o diploma específico não é requisito obrigatório para exercer o jornalismo no Brasil.
