
Um jovem de 18 anos foi preso na manhã desta segunda-feira (15) em Agrolândia, no interior de Santa Catarina, suspeito de estimular adolescentes e jovens à prática de automutilação por meio de comunidades criadas na plataforma Discord. A prisão ocorreu após determinação da Justiça de São Paulo, que expediu mandado de prisão temporária e de busca e apreensão contra o investigado, identificado como Luiz Fernando Souza.
A ação foi realizada de forma integrada pela 3ª Delegacia de Crimes Cibernéticos do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), da Polícia Civil de São Paulo, em parceria com a Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática do Deic de Santa Catarina. Segundo as autoridades, o caso vinha sendo monitorado há meses, diante do avanço de denúncias envolvendo a atuação de grupos virtuais que exploram a vulnerabilidade emocional de jovens.
De acordo com a investigação, Luiz Fernando utilizava canais fechados no Discord para aliciar e manipular adolescentes, impondo desafios e ordens que envolviam automutilação. Em um dos episódios mais graves apurados, ele teria determinado que uma jovem escrevesse, no próprio corpo, o nome de uma delegada responsável pelas investigações, como forma de provocação e tentativa de intimidação às forças de segurança.
Durante o cumprimento dos mandados, os policiais apreenderam na residência do suspeito um computador desktop e um telefone celular. Conforme informou a Polícia Civil, os equipamentos continham material considerado “consistente” para o avanço das investigações, incluindo imagens e registros ligados a comunidades digitais que promoviam a automutilação de jovens. Todo o material será submetido à perícia técnica especializada.
Além das práticas relacionadas à automutilação, os investigadores relataram a localização de imagens e vídeos de adolescentes em cenas de cunho sexual, o que motivou a prisão em flagrante do jovem por crimes adicionais. A polícia destacou que esse tipo de conteúdo agrava significativamente a situação do investigado, ampliando o rol de possíveis delitos a serem apurados no inquérito.
Outro ponto que chamou a atenção dos agentes foi a presença de imagens em que vítimas eram coagidas a reproduzir símbolos de ódio, como a suástica, associada ao nazismo. Segundo a polícia, esse material reforça a suspeita de que o grupo atuava não apenas incentivando práticas autodestrutivas, mas também promovendo discursos extremistas e ameaças veladas a autoridades públicas.
Entre os arquivos apreendidos, também foram encontradas imagens com nomes de autoridades da segurança pública paulista, como o delegado-geral de São Paulo, Artur Dian, e da delegada Lisandrea Salvariego, chefe do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad). De acordo com os investigadores, a marcação desses nomes nos corpos das vítimas tinha caráter simbólico de afronta e intimidação aos responsáveis pelo combate a esse tipo de crime digital.
Após a prisão, Luiz Fernando foi encaminhado à 7ª Delegacia Regional do Complexo da Polícia Civil Carlos Roberto Bastos Miguel, em Rio do Sul (SC), onde foi lavrado o auto de prisão em flagrante. Ele permanece à disposição da Justiça enquanto as investigações prosseguem para identificar outras possíveis vítimas e eventuais cúmplices.
A Polícia Civil destacou que casos como este revelam uma face cada vez mais preocupante dos crimes praticados no ambiente virtual, especialmente em plataformas de comunicação utilizadas majoritariamente por adolescentes. Segundo especialistas em crimes cibernéticos, grupos que incentivam automutilação costumam se aproveitar de jovens em situação de fragilidade emocional, isolamento social ou sofrimento psicológico, impondo desafios progressivos que podem levar a danos graves e irreversíveis.
As autoridades reforçaram que pais e responsáveis devem manter diálogo constante com crianças e adolescentes sobre o uso da internet, além de observar mudanças de comportamento, isolamento excessivo, alterações de humor e sinais físicos que possam indicar sofrimento emocional. Escolas e profissionais da saúde também têm papel fundamental na identificação precoce de situações de risco.
A investigação segue em andamento e não está descartada a possibilidade de novas prisões. A Polícia Civil informou ainda que trabalha para identificar outras comunidades digitais com práticas semelhantes e para oferecer suporte às vítimas, que poderão ser encaminhadas para atendimento psicológico e acompanhamento especializado.
O caso reacende o alerta sobre os perigos do ambiente digital quando utilizado de forma criminosa e reforça a importância de ações integradas entre forças de segurança, plataformas digitais e a sociedade para proteger jovens e adolescentes de crimes virtuais que ultrapassam a tela e afetam diretamente a vida real.