Em todas as suas campanhas eleitorais, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, teve expressiva votação nos estados mais rurais, onde a população é menor, mas a religião é maior. O protestantismo, em particular, ajudou a construir o famoso “Cinturão da Bíblia”, onde há predominância do agronegócio e homens brancos que se dizem extremamente religiosos e conservadores. A região ao sul do país comporta os estados do Alabama, Arkansas, Georgia, Mississippi, Carolina do Norte, Oklahoma, Carolina do Sul, Tennessee e Florida; com parte de outros. No total, 21 estados estão envolvidos de alguma forma nesse cinturão.

Apesar disso, Trump nunca foi um homem de rituais religiosos, comunhão com igrejas ou hábitos que o coloquem como um exemplo a ser seguido nas denominações. Nos negócios, herdou fortuna feita pelo pai, decretou falência das próprias empresas seis vezes. Mesmo assim, continuou bilionário e usou o acesso privilegiado que tinha para enriquecer mais. Jornais dos EUA identificaram que a fortuna de Trump cresceu de modo atípico durante seus dois mandatos, com investimentos em criptomoeda. Há suspeitas de insider trading, quando alguém com informação privilegiada a utiliza para ganhar dinheiro com ações.
Um Homem Virtuoso aos Fieis (?)
Trump declarou ter ganho US$ 1,4 bilhão com criptomoedas em 2025. Segundo a agência Reuters, porém, investidores nesses projetos dele acumulavam perdas de US$ 2,3 bilhões até abril. Então, a ideia meritocrata de conquistar as forças pelo esforço individual, amplamente disseminada pela teologia da prosperidade entre evangélicos, não encontra amparo em Trump. A não ser, é claro, pelo fato de que esse pensamento favorece pessoas já em situações confortáveis e que enfrentam muito menos barreiras sociais ao longo da vida. Um homem branco que deseja mulheres ganha por não ser negro, não ser mulher e não ser gay. Ele tem até mais chance de ser classe média do que pobre.
Levantamento da Pew Research Center identificou que 70% dos estadunidenses consideram Trump pouco ou nada religioso. A pesquisa foi conduzida entre 6 e 12 de abril, posterior às críticas do presidente ao Papa Leão 14 por declarações contra guerras no mundo. Na rede social Truth Social, Trump postou uma imagem feita com inteligência artificial, representado a si mesmo como Jesus, e a apagou após fortes críticas de fieis.

Entre os brancos evangélicos, 51% concordam que Trump é pouco ou nada religioso. Mas, por que, diante de tudo, eles permanecem a base de apoio mais inquebrável? Em parte, graças aos 49% que creem nele como bastante ou ao menos religioso, a maior taxa entre todos os grupos analisados. Diferente do que ocorreu no Brasil, as insinuações de Trump sobre fraude na vitória de Joe Biden em 2020 e a invasão do Capitólio por eleitores ficaram impunes, apesar da morte de policiais. Trump soltou todos os agressores ao assumir o 2° mandato e, com a caneta na mão, demitiu e processou os que tomaram qualquer medida prejudicial à ele.
O Evangelho nas Arestas
Sua relação com uma atriz pornô e demais ações na Justiça caíram, perante a imunidade concedida por uma Suprema Corte de maioria trumpista. Deveria não ter credenciais morais ou de caráter para ser um homem de Deus. Mas ele é visto dessa forma, não por qualquer indicação pessoal de devoção, e sim, pela execução. Não há como negar a bem sucedida instrumentalização do poder que Trump conseguiu junto às igrejas evangélicas. Alguns dos indicados à Corte vem de tradições do Direito que defendem a junção de Igreja e Estado, numa interpretação muito específica das leis.

A aproximação teve início nos mandatos do republicano George W. Bush. A conta gotas, a influência desse setor evangélico foi aumentando até desembocar na revogação do aborto em âmbito nacional, resultado de uma “reinterpretação” da Corte. Sob o pretexto de devolver a independência aos estados, decidiu-se que cada um poderia decidir suas regras e o direito das mulheres foi abolido em dezenas deles, ainda que fosse resultado de violência sexual.
Nas eleições de 2024, a Bíblia não bastava mais aos evangélicos dos EUA. Eles escreveram um novo livro, Project 2025, elencando múltiplas alterações que o presidente deveria fazer se eleito. Trump disse não ter nada a ver com a obra no período eleitoral. Na presidência, adotou a grande maioria do que estava escrito nela.
Vitórias que Custam Muito
Mas Trump nunca foi uma figura adorada pela opinião pública. Sua vitória em 2016 aconteceu sem maioria no voto popular, somente no colégio eleitoral. Há dois anos, venceu em ambos e, dois meses depois de retornar, já era mais desaprovado do que aprovado. Ele era e é odiado nos estados mais católicos, que votam nos Democratas, e amado nos estados vermelhos. Isso não o impediu de colher 63% de rejeição, segundo a última pesquisa Ipsos/Reuters.
O segredo do apoio religioso à Trump pode estar na afirmação de que, num mundo tomado pelo marketing, parecer é melhor do que ser. Ele se declara um cristão sem denominação, embora não faça nada por si que indique isso. Faz pelos outros e, mais particularmente, contra os outros. “Trump é o primeiro presidente em todo o meu tempo de vida que não tenta unir o povo americano. Nem mesmo finge tentar. Ao invés, ele trabalha para nos dividir”, disse o general aposentado James Mattis, dos Fuzileiros Navais.
Essa falta de pudor também se estendeu ao tratamento de outros países, com ameaças constantes à Groelândia, México e Canadá. No caso da Venezuela, a captura de Nicolás Maduro e as negociações com Delcy Rodrigues levaram, por coincidência, a Trump não achar que o país precisaria de novas eleições no momento e seus cartéis de drogas não eram mais tão preocupantes.
Atos Velados
A presença ou falta de aparências em Trump são terrenos férteis para os que escondem bandeiras políticas no escudo da fé. Hora, porque diz o que eles têm vergonha ou medo de dizer fora do púlpito. Hora, por representar exatamente os pecados que ocultam. Ao longo dos séculos, a arte do ato velado adentrou à religião, aquele em que as pessoas não reconhecem o que fazem. No Brasil, a Ipec captou que 81% concordam totalmente ou em parte que o país é racista. Entretanto, somente 11% reconheceram ter tido atitudes racistas. A conta não bate.
Cada vez mais legitimados por candidatos que mimetizam Trump, pastores brasileiros apresentam mais políticos às igrejas e, num cínico apartidarismo, pedem orações pela nação com símbolos apropriados por um partido que se define defensor da família, moral e bons costumes. A associação com o movimento bolsonarista é óbvia, ainda mais com Michelle Bolsonaro (PL) ecoando o discurso de alguns pastores sobre a não separação entre Igreja e Estado. Ela quer o fim do estado laico. Alguém falou “o voto mais barato é o evangélico, compra-se o pastor e vem a igreja toda”. Pode não ser bem assim.

Os fies votam por que concordam. No estado do Kansas (EUA), mais de mil transsexuais perderam a carteira de motorista, porque foi aprovada uma lei em que deveria constar o sexo de nascimento nos documentos. Quantos fieis, perguntados sobre essa possibilidade, responderiam não apoiar a restrição, mas votariam em que as torna legitimas? Eles anseiam pelo fim da existência dos diferentes, só não querem ser vistos com as mãos sujas. O voto permite terceirizar o serviço.
O Lado das Igrejas
No 7 de setembro dos últimos anos, dia da independência do Brasil, bolsonaristas fizeram questão de trazer bandeiras dos EUA e Israel às manifestações contra o governo petista. O alinhamento dessa corrente com os EUA não poupou Jair Bolsonaro (PL) de ser desprezado pelo ex-presidente Joe Biden, mas provocou uma reação inusitada de religiões em disputa desse “mercado”. O Movimento Espírita Progressista (MEP) não pediu voto à ninguém, mas repudiou “qualquer ingerência, pressão ou tentativa de interferência ilegítima no processo eleitoral”.
A Igreja Católica influenciou a política global por muitos séculos até se esvaziar desse poder e adotar uma postura mais “neutra”. Em 24 de setembro, ela entrou na guerra política a partir da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil. Num vídeo para as redes sociais, vários bispos clamaram pela não abstenção e voto consciente dos católicos. “É importante a soberania do Brasil, da nossa Amazônia, de nossas riquezas e bens”, declarou o Dom Frei Samuel Ferreira, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Manaus.
“A Igreja Católica não tem partidos nem candidatos”, ressaltou um dos bispos na gravação, alertando em seguida contra a manipulação religiosa. Os pastores já escolheram. Os bispos também e você sabe. Talvez, se eu fosse religioso, diria que Donald Trump é o mais próximo que o século 21 chegou do anticristo. Ele é, certamente, um símbolo de desunião eficaz.
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