Um relatório de 218 páginas elaborado pela Polícia Federal (PF) reúne mensagens, registros de encontros e documentos relacionados à relação entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, e pessoas ligadas ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O material foi produzido a partir da perícia realizada no celular de Vorcaro e inclui registros de mensagens direcionadas a um número identificado no aparelho como “Alexandre de Moraes BRASILIA”, além de informações envolvendo o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, e eventos realizados em Londres.
O documento foi elaborado em 27 de agosto, a pedido do ministro André Mendonça, relator dos processos relacionados à Operação Compliance Zero. Na terça-feira (1º), Mendonça determinou o levantamento do sigilo do relatório e estabeleceu que os novos elementos deverão ser analisados pelo plenário do STF em sessão presencial e pública.
A investigação da PF busca esclarecer uma suposta rede de influência e monitoramento atribuída a Vorcaro, que teria como objetivo obter informações sigilosas e tentar interferir em medidas que poderiam afetar os negócios do Banco Master.
A própria Polícia Federal, entretanto, ressalva que a análise apresentada no relatório não é exaustiva. Os investigadores afirmam que não realizaram diligências específicas contra magistrados ou integrantes do Ministério Público, limitando-se aos elementos encontrados no material que já havia sido apreendido.

Como a PF identificou as mensagens
Um dos pontos centrais do relatório está na forma como os peritos analisaram as mensagens atribuídas a Vorcaro e destinadas ao contato identificado como sendo de Alexandre de Moraes.
Segundo a perícia, o banqueiro costumava redigir textos no aplicativo de notas do iPhone antes de encaminhá-los pelo WhatsApp. Ele escrevia ou alterava o conteúdo, fazia uma captura de tela e, poucos segundos depois, acessava o aplicativo de mensagens para enviar a imagem.
Os peritos também encontraram arquivos temporários em formato PDF produzidos automaticamente pelo sistema do aparelho. Esses arquivos reproduziam o conteúdo registrado nas notas e foram considerados elementos de corroboração da sequência identificada.
Em três episódios analisados, todos de 30 de outubro de 2025, a PF encontrou uma sequência semelhante: elaboração ou alteração de texto no aplicativo de notas, captura da tela, criação do arquivo PDF, abertura do WhatsApp e envio da imagem para um número salvo no celular como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.
Outro elemento apontado pelos investigadores é que, a partir de 17 de setembro de 2025, o contato passou a utilizar mensagens temporárias configuradas para serem apagadas após 24 horas. Apesar disso, vestígios dos conteúdos permaneceram armazenados no aparelho de Vorcaro.
O gabinete de Alexandre de Moraes contesta a interpretação apresentada sobre os registros. Em manifestação anterior, afirmou que o ministro não recebeu as mensagens citadas em reportagens e classificou como “ilação mentirosa” a afirmação de que teria mantido conversas com Vorcaro.
Pedidos relacionados às investigações
Entre os registros analisados pela PF estão mensagens nas quais Vorcaro demonstra preocupação com investigações que envolviam o Banco Master.
Em uma nota registrada em 30 de outubro, o banqueiro teria relatado ter recebido informações confidenciais de pessoas ligadas ao Banco Central sobre uma suposta pressão da Polícia Federal e do Ministério Público contra a instituição.
Na sequência, segundo o relatório, Vorcaro escreveu que seria necessário “reforçar com Andrei e Paulo”. A PF interpretou as referências como menções a Andrei Rodrigues, então diretor-geral da Polícia Federal, e Paulo Gonet, procurador-geral da República.
Outras mensagens analisadas pelos investigadores apresentam questionamentos sobre a possibilidade de determinadas medidas serem bloqueadas ou adiadas.
Em 16 de novembro, Vorcaro teria feito novo pedido relacionado à atuação da Polícia Federal. Segundo registros mencionados no relatório, ele teria solicitado que uma determinada medida fosse retardada para a semana seguinte e que o interlocutor tentasse sensibilizar o diretor-geral da corporação.
Os registros ocorreram próximo à primeira prisão de Vorcaro no âmbito das investigações relacionadas ao Banco Master.

Mensagem fala em “dívida de vida”
O relatório também apresenta mensagens de caráter pessoal atribuídas a Vorcaro.
Em uma delas, encaminhada ao contato identificado como Alexandre de Moraes, o banqueiro manifesta gratidão e afirma que sua família, funcionários, parceiros e amigos teriam uma espécie de dívida com o ministro e sua família.
“Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você.”
A PF registra a mensagem, mas não estabelece, apenas com esse conteúdo, qual teria sido o motivo da gratidão manifestada pelo empresário.
Esse ponto é relevante porque o relatório reúne diferentes tipos de registros: alguns relacionados a assuntos empresariais e investigações, outros referentes a encontros, relações pessoais e eventos sociais.
Relação aparece em registros desde 2023
Segundo a investigação, os registros de uma relação envolvendo Vorcaro e o contato atribuído a Moraes remontam a dezembro de 2023.
Em 26 de dezembro daquele ano, Fábio Faria teria compartilhado com Vorcaro quatro contatos associados ao mesmo número, entre eles “Alexandre de Moraes BRASILIA”, “Novo”, “STF TSE NOVO” e “Eu STF”. O banqueiro posteriormente salvou o número em sua agenda.
Poucos dias antes, em 21 de dezembro, mensagens indicavam tratativas relacionadas à segurança e ao deslocamento de Vorcaro. Fábio Faria teria solicitado informações sobre o veículo utilizado pelo empresário para que o esquema de segurança pudesse acompanhá-lo até uma garagem.
Em 27 de dezembro, novas conversas mencionaram um almoço com “Alex”. Na ocasião, Vorcaro teria organizado a recepção de uma comitiva no hotel Six Senses Botanique, em Campos do Jordão.
Funcionários do banqueiro acompanharam a visita e registraram a presença de autoridades, incluindo um desembargador e um ministro.
Contrato de até R$ 131 milhões com escritório
Outro ponto de destaque no relatório envolve o escritório Barci de Moraes, de propriedade de Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes.
Em 11 de janeiro de 2024, Viviane teria enviado a Vorcaro uma minuta de contrato para prestação de serviços. A PF identificou nos metadados do documento um usuário denominado “Ministro Alexandre de Moraes” como responsável pela última alteração realizada naquele dia.
Uma nova modificação teria sido feita em 15 de janeiro de 2024, às 23h04, pelo mesmo usuário identificado no arquivo. Dois dias depois, Viviane enviou a Vorcaro a versão final da minuta.
O contrato estabelecia honorários mensais de R$ 3 milhões. O documento assinado em 23 de janeiro previa um valor total que poderia chegar a aproximadamente R$ 131 milhões.
A defesa de Viviane Barci afirma que Alexandre de Moraes foi consultado pela equipe de compliance para verificar eventual impedimento legal relacionado à contratação. O escritório nega que o ministro tenha participado da prestação dos serviços.
Segundo a defesa, o escritório realizou serviços de consultoria jurídica para o Banco Master, envolvendo 15 advogados, 94 reuniões e 36 pareceres entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025.
A defesa também sustenta que o escritório nunca atuou em processos do Banco Master no STF.
Registros de pagamentos
A PF também encontrou registros financeiros relacionados ao contrato.
Em 8 de fevereiro de 2024, Vorcaro teria questionado quando deveria ocorrer o primeiro pagamento. No mesmo dia, os investigadores localizaram um comprovante de transferência de R$ 3.422.268,14 do Banco Master para o escritório de Viviane Barci.
Em março, Fábio Faria teria enviado a Vorcaro uma mensagem afirmando que “o careca não pode atrasar”, expressão que, segundo o contexto apresentado no relatório, faria referência ao pagamento.
Posteriormente, também foram encontradas orientações de Vorcaro para que os pagamentos destinados ao escritório fossem tratados como prioridade.
Em julho de 2025, outro pagamento de R$ 3.422.268,14 aparece nos registros. Dias depois, uma funcionária informou que Leonardo Palhares, advogado de Vorcaro, havia solicitado o pagamento de uma fatura de R$ 22,8 milhões emitida pelo escritório em nome da Viking Participações.
Segundo contrato envolve aeronaves
O relatório identifica ainda um segundo contrato, datado de 12 de maio de 2025, entre o escritório Barci de Moraes e a empresa Viking Participações.
As tratativas incluíam ativos relacionados a aeronaves. Em maio daquele ano, Vorcaro teria solicitado que informações sobre um avião Legacy 650 e um helicóptero EC 155 B1 fossem encaminhadas a Viviane Barci.
Segundo os registros reunidos pela PF, as cotas dos dois equipamentos estavam avaliadas em aproximadamente US$ 5,5 milhões e US$ 1,3 milhão, respectivamente.
Posteriormente, funcionários de Vorcaro passaram a discutir a utilização dos ativos e mudanças na estrutura contratual. Em uma conversa reproduzida no relatório, Viviane aparece respondendo positivamente sobre a utilização das “cotas”.

Registros de encontros
Outro conjunto de informações diz respeito a encontros que Vorcaro teria relatado a familiares, amigos e pessoas de sua rede profissional.
Em novembro de 2024, por exemplo, o banqueiro teria informado à filha que estava com “Alexandre de Moraes”. Em março de 2025, teria feito referência semelhante em conversa com a namorada Martha Graeff.
Em outra ocasião, Vorcaro teria dito ao então diretor do Banco Central Paulo Sérgio que estava “com Moraes aqui”. Na madrugada seguinte, afirmou que Hugo e Ciro haviam chegado para conversar com Alexandre.
A PF considera que esse encontro poderia ter durado mais de quatro horas.
Há ainda registros de abril e maio de 2025 nos quais Vorcaro teria mencionado encontros ou compromissos com Alexandre de Moraes. Em uma das mensagens, afirmou que iria encontrar “Alexandre Moraes” nas proximidades de sua residência.
Em outra, teria dito que estava com “Ciro e Alexandre”. Também há registro de uma tentativa de organizar um jantar envolvendo as mulheres de Fábio Faria e do ministro.
A Polícia Federal, contudo, não apresenta esses registros como comprovação isolada de todos os encontros. Parte das informações consiste em relatos feitos pelo próprio Vorcaro a terceiros.
Eventos em Londres
O relatório também dedica atenção a eventos realizados em Londres e às tratativas envolvendo a participação de autoridades.
Em março de 2024, um contato salvo como “Marcio Conjur” teria informado a Vorcaro sobre um convite relacionado a Alexandre de Moraes para um evento programado para ocorrer entre 24 e 27 de abril.
Durante a organização, Fábio Faria teria enviado mensagem mencionando uma reunião “na casa do Alexandre”. Funcionários de Vorcaro também participaram de conversas sobre a logística de ministros do STF.
Em 19 de abril, segundo o relatório, Vorcaro teria afirmado que estava organizando um evento “super exclusivo com Alexandre de Moraes em Londres”.
As mensagens também mencionariam a entrega de um troféu ao ministro e sugestões atribuídas a Alexandre para a programação do evento.
Em outro episódio, Vorcaro teria repassado a um contato do Brazil Journal uma solicitação atribuída a Moraes para que fosse incluída em uma reportagem a informação sobre uma reunião privada de três ministros do STF com o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair.
Evento de 2025 acabou cancelado
As tratativas relacionadas a eventos em Londres teriam continuado no ano seguinte.
Mensagens de 2025 mostram Vorcaro conversando com Ana Matos, funcionária ligada ao marketing, sobre uma lista de convidados. Em determinado momento, o banqueiro teria afirmado que Alexandre havia reclamado do envio dos convites.
Em julho, Vorcaro teria dito que o ministro havia reclamado “MUITO” do evento.
No dia seguinte, Ana Matos teria informado que havia passado o dia com “Vivi Moraes e o ministro” definindo a programação.
O evento, posteriormente, acabou cancelado.
O que a PF concluiu
Apesar da quantidade de registros apresentados, o relatório não afirma que Alexandre de Moraes tenha cometido crime.
A Polícia Federal explica que o trabalho teve como objetivo reunir e analisar elementos encontrados no celular de Vorcaro no contexto da investigação sobre uma suposta rede de influência e monitoramento.
Os investigadores também destacam que a análise não foi exaustiva e que novas informações podem alterar a compreensão dos fatos.
O documento foi produzido em um período de 72 horas e não incluiu diligências específicas contra ministros do STF ou integrantes do Ministério Público. A atuação dos peritos ficou concentrada no conteúdo já apreendido.
A defesa de Moraes nega que o ministro tenha recebido as mensagens atribuídas a Vorcaro. Já a defesa de Viviane Barci sustenta que os contratos firmados com o Banco Master eram legítimos e correspondem a serviços jurídicos efetivamente prestados.
Próximos passos
Com a retirada do sigilo, os elementos reunidos pela Polícia Federal passam a estar disponíveis para análise pública e institucional. André Mendonça determinou que o material seja levado ao plenário do Supremo Tribunal Federal em sessão presencial e pública.
A partir dessa análise, os ministros deverão avaliar o significado jurídico dos registros e a existência ou não de elementos que indiquem irregularidades.
O principal ponto ainda em aberto é determinar se as mensagens, encontros, contratos e demais registros identificados pela PF representam apenas relações pessoais e profissionais ou se houve eventual tentativa de influência sobre autoridades e procedimentos que poderiam afetar os negócios de Vorcaro.
Enquanto a investigação continua, as diferentes versões apresentadas pelas partes deverão ser confrontadas com os demais elementos probatórios. O próprio relatório da Polícia Federal ressalta que suas conclusões não são definitivas e podem ser modificadas conforme novas diligências e análises sejam realizadas.
