O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a defender nesta sexta-feira (4) uma reforma do Judiciário e afirmou que pretende promover uma discussão sobre mudanças no sistema de Justiça no próximo ano, caso seja reeleito. A declaração ocorreu durante uma cerimônia no Palácio do Planalto e foi feita em meio à crise institucional provocada pelas recentes revelações relacionadas ao Banco Master e às relações do ex-banqueiro Daniel Vorcaro com autoridades.
Ao lado do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, Lula afirmou que a credibilidade das instituições depende da existência de regras aplicadas de maneira uniforme.
Sem citar nominalmente o ministro Alexandre de Moraes, o presidente declarou que nenhuma autoridade deveria utilizar o cargo público para obter vantagens pessoais.
“Ninguém, em nome da democracia, pode utilizar o cargo que tem em benefício pessoal. Ninguém. Todo mundo tem que estar subordinado aos mesmos trâmites da legislação”, afirmou.
Segundo Lula, uma nova reforma seria necessária para ampliar a confiança da população na Justiça e fortalecer as instituições democráticas.
Lula relembra primeira reforma do Judiciário
Durante o discurso, o presidente também recordou a reforma do Judiciário aprovada durante seu primeiro mandato.
Lula mencionou o então ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos e Nelson Jobim, que presidia o Supremo Tribunal Federal à época.
“Eu sinceramente tenho o prazer e o orgulho de ter sido o presidente da República da primeira reforma do Judiciário”, afirmou.
Na sequência, disse acreditar que uma nova discussão poderá ocorrer no próximo ano.
“Tenho certeza de que faremos no próximo ano uma discussão profunda sobre a necessidade de uma nova reforma do Poder Judiciário brasileiro”, declarou.
A proposta foi apresentada por Lula como uma forma de recuperar a confiança da sociedade nas instituições.
“Para que o povo possa continuar acreditando na Justiça”, acrescentou o presidente.
A ideia de uma reforma do Judiciário já fazia parte do discurso político do governo, mas ganhou novo peso diante da crise envolvendo integrantes do STF e as investigações relacionadas ao Banco Master.

Crise do Banco Master aumenta pressão sobre STF
As declarações ocorrem após uma sequência de acontecimentos envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, e integrantes do Supremo.
Nesta semana, o ministro André Mendonça retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal que reúne informações sobre contatos e mensagens atribuídas a Vorcaro com autoridades, incluindo Alexandre de Moraes.
O material passou a ser alvo de intenso debate político e institucional.
Entre os elementos divulgados estão registros de contatos entre Vorcaro e Moraes, além de informações relacionadas a encontros e a um contrato firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia da esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes.
A existência desses registros, porém, não significa automaticamente que tenha ocorrido crime ou irregularidade. As circunstâncias e eventuais responsabilidades ainda são objeto de apuração e de disputa jurídica entre os envolvidos.
O próprio relatório da Polícia Federal passou a ser questionado pela Procuradoria-Geral da República.
Na terça-feira (1º), Paulo Gonet pediu a nulidade do documento e afirmou que a ordem judicial que levou à produção do relatório teria ultrapassado os limites da atuação do Judiciário na fase investigativa.
Gonet sustenta que, caso surgissem indícios envolvendo um ministro do Supremo, a questão deveria seguir o procedimento institucional adequado. O pedido ainda precisa ser analisado.
Lula pede transparência nas investigações
Na quinta-feira (3), Lula já havia se manifestado publicamente sobre a crise.
Em pronunciamento divulgado pelo governo, o presidente afirmou que o país não poderia ficar “refém de vazamentos seletivos” e defendeu que as suspeitas relacionadas ao Banco Master fossem investigadas sem proteção a pessoas específicas.
“É fundamental que se investigue todo mundo, sem blindagem de ninguém, doa a quem doer”, afirmou Lula.
O presidente também pediu que Fachin e Gonet assumam papel importante na condução institucional do episódio e contribuam para preservar a confiança da população nas investigações.
Para Lula, a existência de instituições fortes é condição necessária para a estabilidade democrática.
“Se não tiver instituições sólidas e funcionando, a democracia estará muito vulnerável”, afirmou nesta sexta-feira.
A posição representa uma tentativa de defender a apuração dos fatos sem que o governo federal assuma diretamente a condução da crise no Supremo.
Fachin responde e promete atuação dentro da lei
Durante a mesma cerimônia no Palácio do Planalto, Edson Fachin também falou sobre o momento vivido pelo Supremo.
O presidente da Corte afirmou que a resposta institucional deverá ocorrer dentro dos procedimentos previstos na legislação e que não haverá precipitação, mas também não haverá omissão.
Fachin reforçou que nenhuma autoridade está acima da Constituição e que nenhum Poder está acima da lei.
O ministro também defendeu o encerramento do chamado inquérito das fake news, que tramita no Supremo, e mencionou a necessidade de modernização do sistema de Justiça e de um código de ética.
A manifestação ocorreu justamente em um momento de forte tensão interna na Corte, após o confronto institucional entre Moraes e Mendonça.
Disputa entre ministros amplia tensão institucional
A crise ganhou um novo capítulo na quinta-feira, quando Alexandre de Moraes encaminhou a Fachin um pedido para que André Mendonça seja investigado.
O pedido ocorreu depois da divulgação do relatório produzido a partir de informações relacionadas ao caso Master e da decisão de Mendonça de tornar públicos documentos que estavam sob sigilo.
Moraes questiona a atuação do colega na condução das medidas relacionadas à investigação.
Ao mesmo tempo, Gonet pede que o relatório da Polícia Federal seja considerado nulo, argumentando que a investigação teria avançado sobre um ministro do próprio STF sem que fossem observados os procedimentos que, na visão da PGR, seriam necessários.
O cenário criou uma situação incomum dentro da Suprema Corte, com dois ministros envolvidos em medidas e questionamentos recíprocos relacionados ao mesmo contexto investigativo.
A disputa também elevou a pressão sobre Fachin, que passou a ter papel central na definição dos próximos passos institucionais.

O que Lula propõe com a reforma?
Embora tenha defendido uma nova reforma do Judiciário, Lula não apresentou nesta sexta-feira um projeto detalhado com todas as mudanças que pretende discutir.
O presidente concentrou sua fala na necessidade de fortalecer a confiança da população na Justiça e garantir que autoridades sejam submetidas às mesmas regras.
A discussão sobre mudanças no Judiciário pode envolver temas como transparência, funcionamento das instituições, responsabilidades de autoridades, procedimentos disciplinares e relação entre os diferentes Poderes.
No entanto, qualquer alteração estrutural dependeria de discussão política e legislativa, especialmente quando envolver mudanças constitucionais.
O tema também deverá ganhar relevância durante a campanha eleitoral de 2026, já que Lula disputa novamente a Presidência da República e prometeu discutir a reforma caso permaneça no cargo.
Caso Master deve continuar no centro do debate
Enquanto o debate sobre uma eventual reforma começa a ganhar espaço, as investigações relacionadas ao Banco Master ainda estão em andamento.
O caso envolve diferentes frentes e personagens, e novas informações podem alterar a compreensão sobre os fatos.
Entre os pontos que deverão continuar sendo analisados estão as relações financeiras e profissionais de Vorcaro, os contatos mantidos pelo empresário com autoridades, o conteúdo das mensagens encontradas pela Polícia Federal e a legalidade dos procedimentos utilizados para obter e divulgar essas informações.
Também será necessário definir o destino do relatório questionado pela PGR e avaliar os pedidos relacionados aos ministros do Supremo.
Até o momento, não há decisão definitiva que estabeleça responsabilidade criminal de Alexandre de Moraes ou de qualquer outra autoridade citada nas investigações.
O episódio, entretanto, já provocou uma crise de confiança e colocou novamente em discussão os limites entre independência judicial, fiscalização institucional e responsabilização de autoridades.

Reforma pode entrar no debate eleitoral
Ao defender uma nova reforma do Judiciário, Lula também coloca o tema no centro da agenda política para 2027.
O presidente afirma que a mudança seria necessária para aproximar a Justiça da população e recuperar a confiança nas instituições.
A crise envolvendo o Banco Master, por sua vez, acrescenta urgência ao debate sobre transparência, investigação e responsabilização de autoridades.
Nos próximos meses, o Congresso, o STF, a PGR e outras instituições deverão enfrentar decisões capazes de definir os rumos do caso.
Para Lula, o princípio deve ser simples: independentemente do cargo ocupado, todos devem obedecer às mesmas regras.
A aplicação desse princípio, porém, dependerá dos procedimentos previstos na Constituição e nas leis brasileiras — justamente o ponto central das disputas que atualmente envolvem diferentes integrantes do sistema de Justiça.