É comum pensar que regimes de governo como monarquias e ditaduras favoreçam desigualdades sociais e a pobreza da maioria da população. Ambos, de fato, tendem a priorizar decisões que beneficiem os que ocupam posições de maior poder. Isso leva a uma maior concentração de riquezas nas mãos de pouquíssimos, numa maneira um tanto sem pudor. Mas, na prática, a democracia não é tão diferente. O que muda é o tamanho maior da aristocracia e um senso de imagem pública que busca o afastamento de ostentações.
Desigualdades Bilionárias
O último relatório do Laboratório Mundial da Desigualdade apontou que 10% da população mundial detém 75% de toda a riqueza. Esses também seriam responsáveis por 77% das emissões de gases que agravam as mudanças climáticas. Assim, sendo culpados pelo aumento do calor e frio extremos e desastres que assolam os mais pobres e vulneráveis. Os 0,001% mais ricos, cerca de 60 mil milionários, controlam três vezes mais riqueza do que metade da humanidade.
Embora a qualidade de vida tenha melhorado com o passar das décadas, a Organização das Nações Unidas identificou mais de 3 bilhões de pessoas vivendo na linha da pobreza em 2025. Outro problema é o número de pessoas nas favelas. Aluguéis caros e a especulação imobiliária empurram muitos para a periferia das cidades. Assim, ainda há uma enormes e persistentes desigualdades sociais.
O mito do fim aristocrático
Então, o primeiro passo é aceitar que, talvez, a nobreza nunca tenha caído. Ela apenas se reorganizou com grandes empresários, formando uma oligarquia. Essas pessoas continuaram a ter influência sobre os políticos nas democracias. Por mais que constituições como a brasileira ou estadunidense enfatizem a igualdade de todos, no Brasil o que se vê é um lobby não oficializado pelo interesse de grandes fazendeiros, banqueiros e donos de meios de comunicação. Desse modo, as desigualdades ganham contornos de legitimidade. Para bem ou mal, nos Estados Unidos (EUA), o lobby é regulado por lei.
É possível aproximar as elites políticas do povo ao construir mecanismos constitucionais e culturais que as forcem a usar os mesmos serviços. Viver numa residência mais simples e ter que frequentar o transporte e a saúde públicos são alguns exemplos. Mas, supondo que o país atinja esse patamar, o que poucos foram capazes, ainda haveria a dura realidade das tendências humanas.
A monarquia prevaleceu por muitos séculos graças à teoria de que eram monarcas escolhidos por Deus. Políticos contemporâneos, como o senador Flávio Bolsonaro (PL), retomam essa abordagem ao dizer que concorrer à presidência foi uma missão dada por Deus. Outra razão para o triunfo da monarquia é a de que as pessoas anseiam por heróis e líderes que as guiem. A democracia pode não ser capaz de livrar o homem do desejo de terceirizar responsabilidades. Então, talvez, as desigualdades sejam inevitáveis diante da singularidade humana.
Em 1910, o sociólogo alemão Robert Michels afirmou que até a democracia permitiria formas de aristocracia inevitáveis para o funcionamento da República. Para representar a vontade das massas, ele argumentou que o afunilamento de decisões à poucos indivíduos era incontornável para administrá-las. Ao fazer isso, o povo cria líderes e dinastias inteiras que procuram manter suas posições. Não à toa, há no Brasil vários sobrenomes eleitos para o Congresso que realimentam as desigualdades e se mant
Sem barreiras constitucionais para reeleições, o povo também prioriza estabilidade e gratidão ao herói. Com isso, mantém líderes cada vez mais velhos no poder. Nos EUA, Donald Trump insinuou sobre um 3° mandato aos 80 anos, mas ele teria de alterar a constituição para isso. No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem a mesma idade e chance alta de um 4° mandato. Aos 75 anos, o primeiro-ministro Narendra Modi está em seu 3° mandato pela Índia. Muitos monarcas não tiveram a sorte de governar tantos anos assim.
Seria a democracia uma ilusão de que o povo controla a própria vida? Provável que não. Um regime monarquista designaria um perfil de líderes bastante averso aos que foram escolhidos desde a redemocratização brasileira. Mas num país de regime presidencialista como esse, o Congresso controla cada vez mais os cofres públicos, enquanto atribui as consequências de seus gastos ao Executivo. As desigualdades também continuam por que o povo elege muitos deputados e senadores mais interessados em mantê-las.
“O povo soberano escolheria, em vez de um rei, uma categoria inteira de pequenos reis”. Isso foi o que Michels disse sobre o parlamentarismo. Numa nação especialista em ser e dizer que não se é, pequenos reis podem causar mais estrago do que um predestinado por Deus, com desigualdades que são, acima de tudo, condescendentes.
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