Os trotes no Samu de Ribeirão Preto continuam sendo um desafio para os serviços de emergência da região. Somente no primeiro semestre de 2026, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) registrou 2.822 ligações falsas, número que representa aproximadamente 3% das mais de 87 mil chamadas recebidas pela central telefônica 192 no período.
Embora o percentual pareça pequeno, o impacto sobre o atendimento é significativo. Cada ligação falsa ocupa profissionais, linhas telefônicas e, em alguns casos, pode mobilizar ambulâncias e equipes médicas desnecessariamente, comprometendo o socorro de pessoas que realmente precisam de atendimento urgente.
Segundo o médico regulador do Samu de Ribeirão Preto, Leonel Figueira, o serviço recebe, em média, 166 solicitações de atendimento por dia. Desse total, cerca de 12 chamadas diárias são identificadas como trotes.
“Nós temos 12 trotes por dia, pelo menos, em média, atrapalhando o sistema de emergência do Samu, e não só o Samu, o Bombeiro e a Polícia Militar são sistemas de emergência que sofrem trotes diariamente”, afirmou.

Como funciona o atendimento do Samu
A Central de Regulação do Samu instalada em Ribeirão Preto atende moradores de 26 municípios da região.
O processo de atendimento segue etapas específicas para garantir que cada ocorrência receba a resposta adequada:
- o atendente recebe a ligação e coleta as informações iniciais;
- os dados são encaminhados ao médico regulador;
- o profissional avalia a gravidade da situação;
- caso necessário, uma ambulância é enviada ao local informado.
Esse sistema permite que os recursos disponíveis sejam direcionados conforme o nível de urgência de cada ocorrência.
No entanto, quando uma ligação falsa entra na fila de atendimento, toda essa estrutura acaba sendo utilizada de forma indevida.
Ligações falsas podem atrasar socorro
De acordo com Leonel Figueira, o principal problema dos trotes é o atraso provocado no atendimento de emergências reais.
Enquanto profissionais analisam informações falsas ou deslocam equipes para locais onde não existe nenhuma vítima, outras pessoas podem permanecer aguardando atendimento em situações críticas, como acidentes de trânsito, infartos, acidentes vasculares cerebrais (AVCs) ou paradas cardiorrespiratórias.
“Isso atrapalha muito, porque a emergência não pode esperar e o trote atrapalha. Usa o recurso indevido, vai para o local quando é necessário e outra pessoa pode estar precisando naquele momento, em uma emergência de verdade”, explicou o médico regulador.
Além da perda de tempo, o deslocamento desnecessário de ambulâncias também gera custos com combustível, desgaste dos veículos e utilização de equipes que poderiam estar atendendo ocorrências legítimas.

Trotes são praticados por pessoas de todas as idades
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, as ligações falsas não são realizadas apenas por crianças.
Segundo Leonel Figueira, atualmente o problema envolve pessoas de diferentes faixas etárias.
“Infelizmente hoje em dia, crianças dão trotes, adultos, adolescentes, não tem mais idade, todos eles atrapalham o sistema de emergência, com chamadas indevidas de trotes maldosos.”
O médico destaca que muitas dessas ligações são feitas por diversão, enquanto outras têm o objetivo de causar transtornos ao serviço público.
Independentemente da motivação, todas prejudicam diretamente o funcionamento das equipes de emergência.
Casos já foram usados para facilitar crimes
Além dos trotes considerados “brincadeiras”, o Samu também já identificou situações em que chamadas falsas foram utilizadas como estratégia para desviar a atenção das forças de segurança durante a prática de crimes.
Segundo Leonel Figueira, criminosos acionavam simultaneamente equipes do Samu e da Polícia Militar para uma ocorrência inexistente enquanto outro delito era cometido em uma região diferente da cidade.
“Pessoas ligavam para desviar a atenção do Samu e da Polícia Militar, para executar crimes. Então, eles ligavam dizendo que tinham uma pessoa baleada, o Samu deslocava, a Polícia deslocava, chegava lá, não era nada, e nesse mesmo momento ocorreu um crime em outra região da cidade.”
Situações como essa demonstram que os trotes podem causar consequências muito além do desperdício de recursos públicos, comprometendo inclusive estratégias de segurança e salvamento.
Passar trote é crime
Fazer ligações falsas para serviços de emergência é considerado crime pela legislação brasileira.
Dependendo das circunstâncias, a conduta pode se enquadrar no artigo 340 do Código Penal, que trata da provocação da ação de autoridade por meio de comunicação falsa de crime ou de ocorrência.
A pena prevista é de detenção de um a seis meses ou aplicação de multa, além de outras responsabilizações que podem surgir conforme o caso.
O médico regulador explica que todas as ligações recebidas pelo Samu ficam registradas nos sistemas da central.
Quando os trotes provocam prejuízo significativo ao atendimento ou apresentam maior gravidade, a documentação é encaminhada à Polícia Civil.
“Os trotes graves, que atrapalham todo o sistema, com prejuízo à sociedade, são encaminhados imediatamente. A coordenação reúne toda a documentação, o prontuário, registra o boletim de ocorrência e o delegado abre um inquérito para apurar os fatos”, afirmou Leonel.
Conscientização é fundamental
O Samu reforça que a colaboração da população é essencial para garantir que o serviço continue atendendo com rapidez quem realmente precisa.
O telefone 192 deve ser utilizado exclusivamente em situações de urgência e emergência, como acidentes graves, problemas respiratórios, paradas cardiorrespiratórias, acidentes com múltiplas vítimas, casos de AVC, infartos e outras ocorrências que coloquem vidas em risco.
Evitar ligações desnecessárias e denunciar situações de uso indevido do serviço também contribuem para preservar a eficiência do atendimento.
Para os profissionais da saúde, reduzir o número de trotes significa aumentar as chances de salvar vidas, garantindo que ambulâncias, médicos, enfermeiros e reguladores estejam disponíveis para atender quem necessita de socorro imediato.
Fonte: EPTV
