O candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) acusou o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), de promover uma suposta “interferência política” nas eleições após a Polícia Federal deflagrar, nesta quinta-feira (10), a Operação Make Up, que investiga suspeitas de irregularidades envolvendo emendas parlamentares relacionadas ao filme Dark Horse, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A declaração foi dada em Boa Vista, em Roraima, onde Flávio cumpriu agenda de campanha. O senador afirmou que não existe dinheiro público na produção do filme e questionou a motivação da investigação.
“Não tem absolutamente nada de errado com esse filme. Não tem um centavo de dinheiro público, como já cansei de falar”, declarou.
Na sequência, Flávio acusou Dino de utilizar a operação com finalidade eleitoral.
“O que tem claramente é uma tentativa de interferência política mais uma vez agora do ministro Flávio Dino sobre as eleições. A única realidade, qual o fundamento dessa operação? Político”, afirmou.
A operação foi autorizada por Dino e cumpriu 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. Entre os principais alvos estão o deputado federal Mário Frias (PL-SP) e a produtora Karina Gama.

PF investiga possível desvio de emendas
De acordo com a Polícia Federal, a investigação apura suspeitas relacionadas à destinação de recursos públicos por meio de emendas parlamentares.
Em 2024, Mário Frias destinou R$ 2 milhões em emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Gama, que também está ligada à produção de Dark Horse.
A PF afirma investigar a possível existência de uma organização formada por agentes públicos e privados que teria direcionado recursos para empresas subcontratadas de maneira irregular, sem comprovação da efetiva prestação dos serviços contratados.
Entre os crimes investigados estão peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes relacionados a licitações.
A apuração também identificou movimentações financeiras entre empresas relacionadas aos investigados e possíveis vínculos com pessoas que participaram da campanha eleitoral de Mário Frias.
Segundo informações divulgadas sobre a investigação, empresas relacionadas a doadores de campanha e pessoas ligadas ao gabinete do deputado teriam recebido contratos relacionados a projetos financiados com recursos de emendas.
Essas informações ainda fazem parte da investigação e não representam, por si só, uma conclusão definitiva sobre a existência dos crimes.
R$ 2 milhões são ponto central da investigação
O repasse de R$ 2 milhões ao Instituto Conhecer Brasil é um dos principais pontos analisados pela Polícia Federal.
A investigação busca esclarecer se os recursos destinados por meio das emendas foram efetivamente utilizados nos projetos para os quais foram liberados ou se parte do dinheiro teria sido direcionada de maneira irregular para outras empresas.
A PF também analisa contratos celebrados pelo ICB e pela Academia Nacional de Cultura (ANC), entidades ligadas a Karina Gama.
Segundo os investigadores, haveria indícios de direcionamento de fornecedores e de contratação de empresas sem comprovação adequada dos serviços.
Uma das linhas de apuração envolve possíveis vínculos entre fornecedores, doadores de campanha e pessoas próximas ao gabinete de Mário Frias.
A operação também busca documentos, registros financeiros e outros elementos que possam ajudar a reconstruir o caminho percorrido pelos recursos públicos.

Flávio Bolsonaro não é alvo da Operação Make Up
Apesar de o filme estar diretamente relacionado à campanha presidencial de Flávio Bolsonaro e à família Bolsonaro, o candidato não é alvo da operação deflagrada nesta quinta-feira.
Flávio é investigado em um procedimento separado, relacionado ao financiamento da produção cinematográfica.
Nesse outro caso, mensagens atribuídas ao senador mostraram que ele teria pedido R$ 61 milhões ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para ajudar a financiar o filme.
Na ocasião, Flávio afirmou que apresentaria a prestação de contas da produção.
Posteriormente, o candidato declarou que a produtora Go Up Entertainment, de Karina Gama, havia prestado contas e que as informações haviam sido divulgadas pela imprensa.
A documentação, entretanto, não detalhava publicamente toda a origem e a destinação dos recursos envolvidos na produção, segundo informações divulgadas anteriormente.
A investigação desta quinta-feira é diferente e tem como foco principal as suspeitas envolvendo emendas parlamentares e contratos relacionados ao Instituto Conhecer Brasil.
Dino determinou medidas contra investigados
Além dos mandados de busca e apreensão, a decisão relacionada à Operação Make Up estabeleceu outras medidas cautelares para os investigados.
Segundo informações divulgadas nesta quinta-feira, os 29 investigados submetidos a medidas judiciais foram proibidos de deixar o país sem autorização judicial e também ficaram impedidos de manter contato entre si. Entre os investigados está Mário Frias.
As medidas têm como objetivo preservar elementos da investigação e evitar que pessoas investigadas possam combinar versões, destruir provas ou interferir na coleta de informações.
A aplicação dessas medidas, contudo, não significa que os investigados tenham sido condenados ou que os crimes estejam comprovados.
Flávio relaciona operação à eleição presidencial
Durante a agenda em Boa Vista, Flávio Bolsonaro também ampliou as críticas ao Supremo Tribunal Federal e relacionou a operação ao cenário eleitoral.
O candidato afirmou ter convicção de que vencerá a eleição presidencial e voltou a atacar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
“O Lula já abandonou a campanha política. Ele agora tá contando com os seus amigos no Supremo para tentar levar no tapetão. Vai perder no voto, vai perder no tapetão”, afirmou.
As declarações ocorrem em um momento de forte tensão política e institucional, com diferentes investigações envolvendo integrantes do grupo político ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
A crise também envolve divergências recentes entre ministros do STF, incluindo Flávio Dino e André Mendonça, em processos relacionados a investigações sobre o Banco Master e outros episódios.

Campanha em Roraima
Flávio chegou a Boa Vista pela manhã e participou de uma reunião com empresários do agronegócio, políticos e apoiadores.
Entre os participantes estavam o candidato ao governo de Roraima, Arthur Henrique, o candidato a vice Haroldo Cathedral, os candidatos ao Senado Nicoletti e Hélio Lopes, o prefeito de Boa Vista, Marcelo Zeitoune, o senador Hiran Gonçalves e o ex-governador Antonio Denarium.
Durante o encontro, Flávio afirmou que pretende reduzir entraves burocráticos que, segundo ele, dificultam o desenvolvimento de Roraima.
O candidato também criticou a atuação de órgãos federais em áreas como meio ambiente e questões indígenas.
“O roraimense quer trabalhar e não consegue por causa de burocracia, perseguição ideológica de organismos públicos federais na parte de meio ambiente, na parte indígena”, declarou.
Flávio pediu ainda apoio aos candidatos ao Senado de seu grupo político para que Roraima tenha maior influência política em Brasília.
Depois da reunião, o candidato participou de uma motocarreata pelas principais avenidas de Boa Vista e realizou um comício no Centro Cívico.
Durante o discurso, defendeu propostas como a redução da maioridade penal para 16 anos, o enquadramento de facções criminosas como organizações terroristas e a castração química para condenados por crimes sexuais.
Investigação ainda está em andamento
A Operação Make Up deverá continuar com a análise dos documentos, equipamentos eletrônicos e demais materiais apreendidos durante o cumprimento dos mandados.
A Polícia Federal pretende identificar o caminho dos recursos públicos e verificar se houve efetivamente desvio, fraude documental, lavagem de dinheiro ou participação organizada de agentes públicos e privados.
A defesa dos investigados terá oportunidade de apresentar suas versões e contestar as suspeitas levantadas pelos investigadores.
Até o momento, não há condenação definitiva relacionada aos fatos investigados na operação.
Também é importante destacar que a investigação sobre as emendas parlamentares não significa que o filme Dark Horse, por si só, tenha sido declarado ilegal ou que Flávio Bolsonaro seja investigado como alvo da Operação Make Up.
O caso deverá continuar repercutindo no cenário eleitoral, especialmente porque envolve uma produção cinematográfica diretamente ligada à imagem de Jair Bolsonaro e ocorre durante a disputa pela Presidência da República.