A violência contra entregadores de aplicativos tem sido registrada com frequência no Brasil. Dados do iFood mostram que a plataforma recebeu 1.188 relatos de algum tipo de violência contra entregadores entre janeiro e julho de 2026, o equivalente a uma média de aproximadamente 5,6 ocorrências por dia.
Os registros foram encaminhados à central de apoio aos trabalhadores da plataforma. Entre os casos que tiveram a motivação identificada, discriminação e ameaça aparecem entre os principais tipos de ocorrência. Os dados também apontam registros de agressões físicas e outros episódios envolvendo trabalhadores durante as entregas.
Em uma mesma denúncia, o entregador pode relatar mais de um tipo de violência. Por isso, os percentuais divulgados pela plataforma não necessariamente representam ocorrências isoladas.

Discriminação e ameaças aparecem entre os principais relatos
Dos quase 1,2 mil casos registrados pelo iFood no período analisado, cerca de 300 tiveram a motivação relatada. Segundo os dados apresentados pela empresa, 40% dos registros relacionados envolvem discriminação, enquanto 37% mencionam ameaças.
Também aparecem agressões físicas, com 27%, além de registros classificados como outros tipos de violência e violência sexual. Como uma mesma queixa pode apresentar mais de uma categoria, os percentuais não devem ser interpretados como uma divisão exclusiva de todos os casos.
A plataforma informou ainda que, durante o período analisado, aplicou 1,6 mil sanções a clientes e estabelecimentos em razão de situações relacionadas à violência ou ao descumprimento das regras de segurança.
Casos de violência ganharam repercussão
Alguns episódios envolvendo entregadores tiveram grande repercussão nos últimos anos.
Em março de 2026, um entregador foi alvo de ofensas durante uma entrega no Sudoeste, em Brasília. Segundo o relato, o cliente teria chamado o trabalhador de “moleque” e utilizado outras expressões ofensivas após reclamar da ausência de um refrigerante no pedido.
Outro episódio ocorreu em janeiro, no Metrô Santo Amaro, em São Paulo. Entregadores relataram agressões, ameaças, enforcamento e danos às bicicletas que teriam sido praticados por agentes de segurança da estação.
Em Fortaleza, no Ceará, uma discussão relacionada ao pagamento de uma entrega terminou com um trabalhador ferido na cabeça, em agosto de 2025. O episódio provocou reação de outros entregadores que estavam no local.
Também em 2025, uma servidora do Tribunal de Justiça de Goiás foi acusada de agredir um motoboy com tapas no rosto durante uma discussão relacionada a uma entrega em Goiânia.

Racismo contra entregadores também já foi denunciado
Um dos casos que tiveram maior repercussão nacional ocorreu em julho de 2020, em Valinhos, no interior de São Paulo.
O motoboy Matheus Pires Barbosa, então com 19 anos, foi vítima de ofensas racistas e relacionadas à sua condição socioeconômica durante uma entrega. O episódio foi registrado em vídeo e provocou ampla repercussão nas redes sociais.
Segundo relatos divulgados na época, o cliente teria se recusado a receber o pedido na portaria e, durante a discussão, proferido ofensas contra o trabalhador.
O cliente foi banido do aplicativo e respondeu judicialmente pelo caso. Posteriormente, a Justiça o absolveu após a defesa alegar que ele tinha esquizofrenia.
Outro episódio de grande repercussão aconteceu em abril de 2023, quando a ex-jogadora de vôlei Sandra Mathias se envolveu em uma ocorrência com entregadores no Rio de Janeiro.
Segundo as investigações e decisões judiciais relacionadas ao caso, ela insultou trabalhadores e agrediu o entregador Max Ângelo dos Santos utilizando a guia do próprio cachorro.
Sandra foi condenada e cumpre pena em regime aberto. A situação também gerou uma discussão na esfera cível sobre eventual indenização às vítimas.
Entregadores também podem ser responsabilizados
Embora os dados apresentados pelo iFood apontem os trabalhadores como vítimas nos casos registrados, também existem ocorrências em que entregadores são acusados de violência contra outras pessoas.
Em dezembro de 2025, um porteiro de um prédio no Sudoeste, em Brasília, foi agredido por um entregador de aplicativo após um desentendimento. Segundo o registro divulgado na época, o trabalhador teria dado uma “voadora” no funcionário do edifício.
O episódio mostra que conflitos durante o processo de entrega podem envolver diferentes participantes, incluindo trabalhadores, clientes, funcionários de estabelecimentos e profissionais responsáveis pela segurança ou portaria dos locais.
Número de trabalhadores por aplicativo cresceu
O cenário ocorre em um mercado que reúne milhões de trabalhadores no país.
Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontaram que o Brasil tinha 1,959 milhão de pessoas trabalhando por meio de aplicativos em 2025.
Desse total, aproximadamente 585 mil utilizavam plataformas para realizar entregas de comida, produtos e outros itens. O levantamento identificou ainda cerca de 376 mil pessoas especificamente como entregadores.
O crescimento desse tipo de trabalho amplia a presença desses profissionais nas ruas e em diferentes ambientes, como condomínios, estabelecimentos comerciais, empresas, residências e estações de transporte.
Com isso, situações de conflito durante as entregas podem envolver diferentes fatores, desde problemas relacionados aos pedidos até discussões sobre pagamento, acesso a prédios, atrasos e comportamento de clientes ou trabalhadores.

iFood criou política específica contra violência
Diante dos relatos, o iFood desenvolveu uma Política de Combate à Discriminação e Violência, com medidas voltadas ao atendimento dos entregadores que enfrentam esse tipo de situação.
A iniciativa prevê suporte psicológico e jurídico aos trabalhadores, sem custo para o entregador, de acordo com as condições estabelecidas pela plataforma.
Em declaração divulgada pelo Metrópoles, o diretor de Impacto Social do iFood, Johnny Borges, afirmou que um dos objetivos da política é fazer com que o trabalhador não se sinta sozinho diante de uma situação de discriminação ou violência.
“A gente gostaria que não só os entregadores, de certa forma também a sociedade, porque a sociedade, quanto mais conhecer a nossa política de combate à discriminação e violência, mais fácil fica esse trabalho de diminuir as violências”, afirmou.
Plataformas afirmam adotar medidas de segurança
Outras empresas do setor também afirmam manter mecanismos para receber denúncias e oferecer assistência aos trabalhadores.
A 99 Food informou que adota uma política de tolerância zero contra discriminação, violência e ofensas. Segundo a empresa, incidentes podem ser comunicados pela Central de Segurança do aplicativo, que funciona 24 horas por dia.
Após o registro, uma equipe especializada avalia a ocorrência e busca informações com as partes envolvidas. A plataforma também informou que pode oferecer assistência médica e psicológica por meio dos seguros disponíveis, dependendo das características do caso.
A Keeta, por sua vez, informou que possui uma central de segurança com atendimento 24 horas para incidentes envolvendo entregadores parceiros.
A empresa afirmou ainda que investiga reclamações relacionadas a comportamentos considerados antiéticos, independentemente de qual parte esteja envolvida, e que pode adotar medidas conforme seus termos, condições e políticas internas.
Segurança depende de trabalhadores, clientes e empresas
Os números mostram que a violência contra entregadores não se limita a um único tipo de ocorrência. Discriminação, ameaças, agressões físicas e outros conflitos aparecem nos registros encaminhados às plataformas.
Ao mesmo tempo, os episódios envolvendo entregadores como possíveis autores de agressões mostram que a questão também envolve a responsabilidade de todos os participantes da cadeia de entrega.
Para os trabalhadores, canais de denúncia e mecanismos de assistência podem representar uma forma de registrar formalmente os episódios e buscar apoio. Para clientes, estabelecimentos e demais envolvidos, o respeito às regras de convivência e segurança é parte fundamental para reduzir conflitos durante as entregas.