Nas últimas semanas, o comentarista político Paulo Figueiredo disse que “mulher vota estatisticamente muito mal” e que mulheres casadas tendem a acompanhar o voto do marido. Para além da insinuação de que o homem saberia o suposto rumo político correto de um país, a fala ecoou um discurso crescente nos Estados Unidos (EUA). Lá, vários pastores evangélicos defendem o voto por família, dado pelo homem que seria o chefe da casa.
Mas a importação dessa pauta estrangeira falha antes mesmo de pegar o avião internacional. Um estudo da National Association of Realtors (NAR) publicado em 2023 revelou que as mulheres solteiras compravam mais casa do que os homens. Em 2013, a Pew Research Center já indicava que elas iriam superar os homens na chefia de casas. No Brasil, a reivindicação ganha ainda menos aderência com 41 milhões de lares chefiados por mulheres. Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), 51,7% das casas teriam elas como as principais fontes de renda.
Em 2024, o Nubank, que já tinha uma CEO, apontou Livia Chanes como a nova presidente-executiva. Sob o comando dela, a empresa conseguiu mais 20 milhões de clientes e bateu os 100 milhões. Significa que, no mínimo, metade dos brasileiros confia o dinheiro às mulheres em posições baixas ou altas da hierarquia econômica.
Por outro lado, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro era comprometido e um “homem de Deus”. O perfil que os defensores do voto por família desejam. Exceto, que ele mantinha relações amorosas com várias mulheres. As mensagens obtidas pela Polícia Federal também revelam um banqueiro egocêntrico e adepto de silenciar adversários. Segundo o órgão, Vorcaro planejava um repórter com um assalto antes de ser preso novamente.
O peso diferente às mulheres
Quando as acusações de fraude com fundos de pensão relacionadas ao banco Master começaram a surgir, muitas figuras públicas relevantes saíram em defesa de Vorcaro. Independente haver ou não irregularidade, fato é que houve uma gestão ruim. Luiza Helena Trajano também é acusada de não saber gerir o Magazine Luiza, embora em nenhum sentido ilícito. As ações da empresa bateram R$ 232 em 2021. Agora, não alcançam os dez reais. Mesmo assim, a solidariedade em torno dela não chega nem perto da prestada à Vorcaro.
A ex-presidente Dilma Rousseff é outro caso emblemático. Formada em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ela foi responsabilizada por “pedaladas fiscais” e descontrole inflacionário no país. Em 2016, a população protestou com fervor e o processo de impeachment foi aprovado de maneira esmagadora.
Atualmente, apenas 91 das 513 cadeiras do Congresso Nacional são ocupadas por deputadas. O maior número que as mulheres conseguiram. Imagine, então, o que foi enfrentar um voto masculino ainda mais majoritário. Esses mesmos políticos, vários envolvidos com Vorcaro, não hesitaram em condenar Rousseff. Isso após serem favoráveis a diversas pautas que explodiram os cofres públicos. Hoje, Rousseff está no segundo mandato à frente do Novo Banco de Desenvolvimento, o banco do BRICS.
No mercado, o Ministério do Trabalho apontou que as mulheres ganham 21,3% menos que os homens no setor privado. Diante de um desemprego em baixos níveis históricos, as mulheres ganham menos e administram mais. Elas precisam ser obrigatoriamente as melhores, pois não terão a mesma empatia. Às vezes, são culpadas por erros dos homens. Então, talvez, a pergunta deva ser “por que o Brasil desvaloriza tanto o sexo feminino?”
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